quarta-feira, 26 de julho de 2017

O Passeante invisível

Nunca ninguém o viu. Nunca ninguém se deparou com ele ao dobrar uma esquina, fosse noite ou dia. Nunca ninguém duvidou que ele se passeava invisível por toda a cidade. Alguns afirmavam ter entrevisto sombras que eram indubitavelmente do passeante invisível. Alguns afirmavam ter ouvido sons abafados, momentâneos arrastamentos de pés, que comprovavam que ele se passeava por ali.
A cidade é feita de muitas estruturas artificiais. Os homens precisam de um lugar coletivo para viver. Estarem juntos dá conforto e segurança, mas demasiada proximidade torna-se inquietante. Estar a sós com outro homem numa rua deserta, noite alta, é tão ou mais assustador do que enfrentar os silêncios e os ruídos da noite na floresta, na serra, no campo. Os homens precisam de estruturas, muros que os separem dos outros homens. O passeante invisível construira a cidade, mantinha as estruturas fortes, escorraçava os inimigos, assegurava os fornecimentos. Ele é forte e destemido; passeia-se por toda a cidade, sobretudo no ermo da noite. Dizem. Porque veem sombras, ouvem certos sons reveladores, porque só pode andar por lá, invisível.
— Olhem, lá vai a sombra dele, por entre os pilares daquelas arcadas — diz um.
— Olhem, vi agora mesmo um reflexo dele no vidro daquela montra — assevera outro.
Ninguém punha em dúvida estes avistamentos fantasmáticos. Toda a gente sabia que o passeante invisível andava por lá. Nalgum sítio havia de estar: nas arcadas, nos vãos das portas, nas gares rodoviárias ou marítimas. Os seus sinais vislumbravam-se sempre a desaparecer por detrás de alguma estrutura da cidade. Ele andava lá, mas invisível.
Conta-se que, em tempos que ninguém já recorda, um jovem, irreverente como todos os jovens, ao ouvir alguém dizer, pela milésima vez, que acabara de avistar a silhueta do passeante invisível, não se conteve, como seria prudente:
— O passeante invisível não existe!
Um grande burburinho se gerou entre os que ouviram tal dislate. Quiseram bater-lhe, ou então que retirasse o que tinha dito, que pedisse desculpa.
— Quem é que achas que construiu a nossa cidade, mantém as estruturas fortes, afasta os nossos inimigos e assegura os fornecimentos de que a cidade precisa? — confrontaram-no.
O jovem ainda tentou persistir no erro, mas compreendeu que estava isolado e desacreditado. Pediu desculpa.
O alcaide, no entanto, não hesitou em tomar medidas que devolvessem à população toda a confiança eventualmente perdida e até a reforçassem. Emitiu um edital anunciando que, a partir de então, por especial mercê do passeante invisível, ele passaria a usar uma roupa que o tornasse visível e identificável. Além disso, quem quisesse ver a roupa por ele usada, bastaria dirigir-se à alcaidaria onde estaria exposta numa câmara junto à entrada.
Os muitos cidadãos que lá acorreram viram o que parecia andrajos de mendigo, dado o seu aspeto miserável, mas todos compreenderam que eram os mais adequados para alguém tão humilde que evitava mostrar-se. A confiança de todos fortaleceu-se. O passeante invisível continuava a proteger a cidade e agora podia ser visto. E mais frequentemente passaram a avistá-lo nas arcadas, nos vãos das portas, em outros abrigos precários. Se não era ele, parecia, pelos trajes.

Joaquim Bispo



* * *
 fonte :   http://samizdat.oficinaeditora.com/feeds/posts/default

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Intempéries sobre a crosta do sal



A decair
Rir
E navegar.

São
Riachos ao
Mar

Sempre
Compreende
Quem quer

Ou

Enleia
A aldeia
E
Mareia
O luar

Livre, branco,
Santo, rito, norma,

Forma

Dorme, sem par

A peste merece
Apodrecer
Em flor

Adubar-se a si
E se adubar
Regar enfim

Para no fim

Alguém amar
Teu féu
Tão céu a ti

Estrelas penduradas
Aos cacos

Tua constelação
De faz-de-conta

Para navegar no barco
Do real

Solidão.

ACM

Incorpóreo corpo-neón



Novas linguagens
In-expressam
Se apressam em ser
O ser

O mote da ode
baila a música que quer

Quando dois ou mais
Símbolos
Arregimentam egos

Nós esfumaçamo-nos
Em pares
Quais ares matinais

O poema e não
Poesia
Mar e não marés

A ferida deste ou daquele
Adeus
Entre os meus pais
No mesmo coração
De esmeralda bruta

A chacota iletrada
Julga-se feliz
A descolorir-se em
Gargalhada

E corroborar o vácuo.

Ao fundo soa a trombeta
Em canção

O sofrimento apenas
Indicara o caminho

Hoje
Sempre
Nunca

Ao léu de si
Uma ponte para o nada

Cardumes de sonhos
Boiam
Jazidas tóxicas do futuro

Progresso, sim
O progresso

Nuances do amanhã
Sem cor.

ACM
então é isso
quando achamos que vivemos estranhas experiências
a vida como um filme passando
ou faíscas saltando de um núcleo
não propriamente a experiência amorosa
porém aquilo que a precede
e que é ar
concretude carregada de tudo:
a cidade refletindo para sua hora noturna e todos indo para casa ou então
marcando encontros improváveis e absurdos, burburinho da multidão circulando
pelo centro e pelos bairros enquanto as lojas fecham mas ainda estão iluminadas,
os loucos discursando pelas esquinas, a umidade da chuva que ainda não passou,
até mesmo a lembrança da noite anterior no quarto revolvendo-nos em carícias e
expondo as sucessivas camadas do que tem a ver – onde a proximidade dos
corpos confunde tudo, palavra e beijo, gesto e carícia

TUDO GRAVADO NO AR
e não o fazemos por vontade própria
mas por atavismo
2
a sensação de estar aí mesmo
harmonia não necessariamente cósmica
plenitude muito pouco mística
porém simples proximidade
da aberrante experiência de viver
algo como o calor
sentido ao lado de uma forja
(talvez devesse viajar, ou melhor, ser levado pela viagem, carregar tudo junto,
deixar-se conduzir consigo mesmo)
ao penetrar no opalino aquário
(isso tem a ver com estarmos juntos)
e sentir o mundo na temperatura do corpo
enquanto lá fora (longe, muito longe) tudo é outra coisa
então
o poema é despreocupação


com a cabeça pousada
nas pernas da avó
a saia de brocado
pinica a orelha
esquerda.
cantarola salmos e vai à caça
distraída.
o pente-fino é azul.
as varizes na panturrilha dela também.
os dias e a toalha de mesa.
o pente-fino
atravessa meus cabelos de diaba
as crianças dizem diaba
eu nunca digo.
um pouco amansados
(não o suficiente)
com álcool e cravos
nada
enquanto a avó ajeita os óculos,
procura bichos em mim.
a mesma que estoura as lêndeas
as unhas imensas.
como se vingasse
suspeito
o que não caberia na casa.


de NATASHA FELIX(1996) poeta santista, está vivendo em São Paulo e cursa letras na USP. Publicou o zine anemonímia (2016) e tem poemas por algumas revistas digitais e físicas. Os textos podem ser encontrados na Mallarmargens, Medium, Nó de 8, Garupa, Raimundo e soltos em sua página pessoal do Facebook. Natasha Felix está na 95ª postagem da série AS MULHERES POETAS...

Se quiser ler mais, clique no link http://www.rubensjardim.com/blog.php?idb=51457

Poemas de Sérgio Castro Pinto

RECADO A POUND
pound, eu não sou
nenhuma antena.
eu sou a pane
e a interferência
dos meus fantasmas
no tubo de imagens dos poemas.

EXÍLIO
desarvorada,
a madeira
do móvel
desata
os seus nós e estala
a árvore que foi (no exílio da sala).

LAPIDAR
em cada verso
que escrevo,
eu me parto.
a folha é lousa.
poemas, epitáfios.

DOMICILIARES
a) bêbado, cadarços são rédeas
que me põem os sapatos.
bêbado, não chego.
bêbado, os sapatos
me entregam em domicílio.

O LÁPIS
o lápis
é um caniço
pensante
na maré
vazante
da linguagem


Sergio de Castro Pinto

A SE DAR


o silêncio aberto e minhas mãos percorrem
a aparente distância que há nos lugares
a água nesses rios que sempre correm
é a mesma, é a chuva a se dar nos ares
no tempo tudo vai e vem a unir
aproximam-me terra e céu, noite e dia
os enredos lá se vão ao que há de vir
que a memória há de ver-se no que via
a aparência nas coisas não revela
o fulgor do instante que não se acaba
a luz de uma página que amarela
entre a flor e a raiz há um leve traço
de silêncio, na seiva que há tanto se dava
e de tanto se dar há de ser o espaço


de FERNANDA CRUZ FILHA (1967) poeta goiana, é psicóloga, mestranda em Performances Culturais pela Universidade Federal de Goiås. Publicou os livros de poesia: Regatos do Instante (2007 )e O ar mais próximo, (2012). Antes de enveredar pelos caminhos da poesia, atuou em artes cênicas e também como cantora de mpb e música erudita.Fernanda Cruz Filha está na 95ª postagem da série AS MULHERES POETAS...
Se quiser ler mais, clique no link http://www.rubensjardim.com/blog.php?idb=51457

MEIO DIA


a Terra respira
formigas transitam por suas nervuras
arabescos de pássaros
pontuam o pausado discurso das nuvens
só existe o espaço
a paisagem lacustre
que agora cobre uma cidade submersa
e sem saber por que vim parar aqui
o que me trouxe a essa fronteira de lugares e sensações
entro n'água
a claridade me leva à deriva
flutuo no amplo
embebido no dia mais que morno
sei-me hóspede de quem tenho sido
(a superfície do lago
se desmancha no movimento dos círculos concêntricos)

Claudio Willer
VOU TE DAR MEU ÚLTIMO VERÃO
vou te dar meu último verão
todo o outono amarelo
e quando me alcançar
vai ver que sou o mais puro inverno
não dos trópicos
mas dos lugares mais frios da terra
terras da sibéria
não adianta me dizer para abrir as janelas
o sol me é estrangeiro
tenho em mim geleiras ancestrais
meu coração não bate
vacila descompassado
selvas do universo me rondam
e mesmo assim você vai me recriar
e me amar com tudo que sou
porque você
precisa de uma criatura só sua
mesmo inventada
mesmo com essas sombras geladas

 ADRIANA GODOY, poeta mineira, é formada em letras pela UFMG e trabalha como professora e revisora. Desde pequena escreve, mas foi a era dos blogs que tornou seus textos mais conhecidos. Colabora com alguns blogs e revistas literárias e alguns de seus poemas foram publicados no livro ‘Maria Clara: universos femininos’. Em 2015 publicou o seu primeiro livro solo: Mil noites e um abismo. Adriana Godoy está na 95ª postagem da série AS MULHERES POETAS...Se quiser ler mais, clique no link 

Muitos poetas, escritores, artistas, criticam a política - como se fosse uma atividade exclusiva de mafiosos - mas agem igualmente como mafiosos. Trabalham nos bastidores para conseguir poder na grande imprensa, nas grandes editoras, nas universidades e até em pequenas publicações. Evitam o debate público e trabalham na surdina para isolar outros artistas, lançá-los na marginalidade, torná-los invisíveis. Em quarenta anos de atividade artística já vi muitos grupinhos assim, agindo como pequenas organizações mafiosas. Esses estão longe, muito longe, do verdadeiro caldeirão artístico, que é uma comida suculenta, feita por muitos, para alimentar a todos.(postagem lúcida do Ademir Assunção . Coloco aos amigos pra reflexão)

A PALAVRA


vocês não entenderam nada, vocês não sabem nada
poesia não é querer escrever bem
poesia é o que eu ainda irei relatar em prosa
poesia é o que ainda pretendo escrever
para depois reler e dar risadas, imaginando o espanto de quem vier a ler o que escrevi
poesia é velocidade
do disparo de revólver verdadeiro, da janela, no automóvel que ia passando por aquele alvo escolhido ao acaso,
poesia é som,
o áspero ruído do gume de diamante sendo testado por dois especialistas em arrombamento na vitrina daquela loja de armas a 80 m. de distância de uma delegacia (eu esperava no carro) (se houvesse cedido, levávamos tudo)
poesia é luz
daquelas janelas abrindo-se todas ao mesmo tempo, todo mundo acordando para ver que espécie de confusão era essa, o que aquele bando de malucos fazia na rua àquela hora
poesia é noite
a outra noite, aquela (no HC, minha pressão caiu, e depois ainda tive que dar a notícia aos amigos)
poesia é dizer
é ela dizer: “como você me revoluciona por dentro”
poesia é escrever
com um cuidado enorme, pesando cada palavra, para não me declarar réu confesso
poesia é névoa
de fumaça enchendo o quarto, todo mundo a dar risadas sem conseguir parar
poesia é porrada
algo bem melhor do que briga de scholars, aqueles da outra universidade contra esses desta,
poesia grossa (cacete rombudo, que tal esta imagem?)
poesia é isso, é isto, também é aquilo, é agora
poesia é o que sempre soubemos
o conhecimento animal
um núcleo raivoso anterior à Queda
- Gnose
estou falando de filosofia, de essência,
uma exploração do desconhecido pelo corpo, através do corpo,
o Marquês de Sade nem precisava daquele teatro todo
o que sei é onde penetrei,
- o telefonema que me traz lembranças de trinta anos atrás, de ontem, de agora, seu som a vibrar neste ar parado de noite antes de mais uma tempestade -
nada me interromperá
sempre usei uma linguagem direta,
Prometeu, Fausto
não quero falar, quero ser dito
sejamos densamente humanos
como a chuva
no ar saturado de excesso
parto ao encontro do núcleo selvagem de qualquer coisa
diamante ou lágrima perdida no fundo do bosque
ex-deusa
assim me despeço
mas eu a reencontrarei
lunar
resta saber o sonho, parábola da vida

Willer, Claudio . De Jardins da provocação (1981)


Trecho de um work in progress meu:

"Acho que foi um contágio mundial, facilitado por uma comunicação agora via satélite. Bastava olhar as manchetes nas bancas de revistas, ouvir os noticiários do rádio, assistir aos telejornais. Não importa se em Nova York, Paris, Praga, Tóquio, Rio de Janeiro ou Cidade do México, lá sempre você via um jovem atirando uma pedra, sendo espancado pela polícia, levantando barricadas ou incendiando automóveis. A rebelião era mundial, planetária, total: um cataclisma cósmico que abalava o mundo até os seus fundamentos. Você não queria apenas testemunhar a história, que se fazia, ao vivo, na sua frente, mas participar dela, intervir nela, estar nela. Entre jeans, minissaias e tragadas de marijuana, o velho mundo de nossos pais ardia em chamas e desse incêndio colossal nasceria um mundo novo, inaudito. Sejamos realistas, peçamos o impossível – era o lema que amanhecia nos muros de uma Paris sublevada pelos jovens. Pois a vanguarda dessa revolução não eram mais os camponeses, que se extinguiam, nem os operários, que se aburguesavam (não aqui, obviamente, mas nos países industrializados), mas os garotos e garotas que, como eu, amavam os Beatles e os Rolling Stones. Não acredite em ninguém com mais de trinta anos – era outro lema. O céu estava ao alcance das mãos, o paraíso na próxima esquina, a revolução era questão de semanas. Poder jovem, poder negro, queimas de sutiã, guerras de libertação nacional, vietcongues, crimes, espaçonaves, guerrilhas, bomba e Brigitte Bardot. Nas fotos coloridas e nas letras garrafais, o mundo explodia nas bancas de revistas da Rua das Flores: A Universidade de Louvain, na Bélgica, é fechada após uma semana de conflitos entre os estudantes e a polícia, na Espanha o governo fecha as universidades de Valência e Madri, o exército invade a universidade de Maracaibo, na Venezuela, onde quatro estudantes são mortos e trezentos feridos, Martin Luther King é assassinado em Memphis, estudantes ocupam a universidade de Colúmbia em Nova York, no Central Park sessenta mil jovens protestam contra a guerra do Vietnã, dez milhões de trabalhadores cruzam os braços na França, estudantes proclamam greve na Argentina, no Uruguai o governo decreta estado de sítio após confrontos de estudantes e operários com a polícia, a Universidade de Bogotá, na Colômbia, é ocupada pelos estudantes, tanques soviéticos entram em Praga, apoio às manifestações estudantis na Cidade do México reúne cerca de trezentas mil pessoas, a polícia militar invade a Universidade de Brasília, a Universidade Federal de Minas é fechada, em Ibiúna, interior de São Paulo, o congresso da Une acaba com a prisão de oitocentos estudantes, Caetano Veloso e Gilberto Gil são presos no Rio."

Otto Leopoldo Winck
Mais um trecho do romance que estou rabiscando. Ah, o narrador tem 18 anos e está em Curitiba no ano de 1968:

"No dia seguinte, quando dei conta de mim, já eram duas da tarde. Me espreguicei no meu modesto quarto de pensão: uma cama com um colchão de molas enferrujadas, um guarda-roupa com duas portas onde estavam meus dois pares de calça, meia dúzia de camisas, dois pares de sapatos velhos, e um criado mudo com meia dúzia de livros em cima. Levantei-me, abri a janela e os raios do sol por um momento me obrigaram a franzir os olhos. Naquela semana ainda não dera as caras no Camões. É natural que com uma vida cheia de compromissos políticos e boêmios não me sobrasse muito tempo para o cursinho – o único motivo de eu estar aquele ano em Curitiba. Além disso, minha, digamos, modesta condição já começava a encher o saco. Volta e meia eu tinha que aceitar uma ajuda do Júlio ou da Elisa para pagar uma cerveja ou empadinha. Eu queria comprar um sapato novo, um casaco, um ou outro livro – e não podia. Quantas vezes quis, ao passar por uma banca de revistas, comprar um jornal, entrar num café e ficar lendo despreocupadamente, como eu via tanta gente fazer na Avenida Luiz Xavier – na chamada Boca Maldita. Ah, eu tinha liberdade, não tinha horários fixos, compromissos obrigatórios, mas, sem dinheiro, que sentido tem a liberdade?"

OLW
Haverá um dia que
serei apenas letra
e no meu epitáfio
será gravado
[…]
“ela, de tanto ser nada,
tornou-se palavra.”


 de PÂMELA FILIPINI(1994) poeta nascida na cidade de Rolim de Moura , em Roraima,

começou a escrever na infância. Tem formação universitária em Pedagogia, e atualmente dedica-se exclusivamente à escrita. Cultiva solidão e se planta ao silêncio para sobreviver. Escreve.e nas horas vagas, existe.,O lançamento de seu primeiro livro, Folhas dos Ossos ou o tratado das coisas insignificantes será dia 26 de Agosto, no Patuscada.Pâmela Filipini está na 95ª postagem da série AS MULHERES POETAS

...Se quiser ler mais, clique no link http://www.rubensjardim.com/blog.php?idb=51457

MENSAGENS, 1: ENQUANTO RELEIO ALLEN GINSBERG


porque o mundo é mágico
eu escrevo instalado em um canto tranquilo da cidade
onde servem café
e sei-me parceiro das leis secretas que regem o real
você enxerga / eu enxergo à frente / atrás
o que foi e o que será
poesia é isto: saber olhar
atentamente, distraidamente
e contar
tudo o que ninguém precisa saber

Claudio Willer
escravo do que escrevo
não vivo, vicejo,
e vejo, pasmo,
o que perco do que passa
escravo do que perco
não vivo, escrevo
e revejo, avaro,
o que passa do que perco
se não há jeito
tento ao menos reter
um pouco do que passa
do muito do que perco
escrever vai ver é isso:
mais que reviver o vivido
reinventar o perdido

Otto Leopoldo Winck

domingo, 16 de julho de 2017

ando sem perguntas e sem respostas.
dou comprimido ao gato em um segundo
e recebo mudo olhar de gratidão.
mas não me interessa saber por que este gato engole comprimidos
como fina iguaria e outros arranham o céu para não fazê-lo.
ele simplesmente toma o comprimido.
não há nada demais num gato que toma comprimidos em um segundo.
nenhuma metafísica, nenhuma mesmo, nele ali, de cabeça para baixo, vencido, vendo o mundo pelo teto branco da cozinha.
no fundo ele é só um gato que toma comprimidos em um segundo
e eu a que entrou em sua sina para que ele não morresse.
para que ele não morresse como um vagabundo estirado na calçada.
todo resto não precisa de pergunta nem resposta.
todo o resto simplesmente é.
todo o resto simplesmente tem sido.

Lázara Papandrea

domingo


meio triste meio alegre o domingo segue como todos os domingos:
um certo gosto de sei lá
um certo fastio de tudo
uma mansidão até infame
o sol e o céu azul e a preguiça
e a preguiça meu deus,
ai q preguiça
( ia dizer tédio mas não é tédio, nem esse salamaleque de spleen)
e talvez nem seja preguiça: é apenas a tarde de domingo
esse sentimento sei lá de q: mornidão.


 Sérgio Villa Matta




cultivo a flor do deserto
num coração de pedra
dessa rocha não sai leite

sai sim suor

Júlio Alves

AS ABORDAGENS



A uma lanchonete pequena cheguei, cumprimentei as poucas pessoas que estavam lá, pedi uma cerveja e como já conhecia alguns iniciei um bom bate-papo.
Pouco tempo passado, eu ainda na primeira garrafa, chegaram dois fardados que entraram, olharam nossa cara, os cantos do estabelecimento e embaixo da mesa de sinuca localizada no centro daquele espaço. Saíram sem nada perguntar ou dizer, mas, com cara de poucos amigos. O silêncio que tinha tomado conta do ambiente começou a se dissipar.
Dois rapazes que estavam mais próximos ao portão da lanchonete foram para fora e andaram até a curva da esquina, olhando para onde tinham ido, e de onde vieram os dois fardados.
Retornaram rápido sob meu olhar e dos amigos que estavam perto de mim. Disseram apenas: estão voltando, e se sentaram de novo, onde estavam.
Chegaram os dois fardados e mais outros três com armas em punho, direcionadas a nossas cabeças, gritando: mãos na parede, abram as pernas vagabundos:
- Tem alguém armado?
- Você neguinho, tem passagem? - (não se tratava de passagem de ônibus para os desinformados e afortunados por nunca terem ouvido isso com a gentileza costumeira).
Coturnos encontrando tornozelos, como fazem os zagueirões pra defesa dos goleiros... no meio do campo, com a força dada por Deus.
Uns aiai, senhor..., outros gemidos..., uma perna solta na tentativa de aliviar o impacto foi percebida. O dono dela recebeu um gancho na costela. A geral foi dada entre o medo e terror do que poderia nos acontecer. Esculacho..., seria o de menos. Infelizmente já vimos e vivemos coisas piores, em outras ocasiões como esta.
Passada aquela ação truculenta, alguns foram embora, sentindo falta de dignidade e um com costela quebrada, mas..., vivos.
Calejado após muitas luas, pedi outra cerveja, porque, a primeira tinha esquentado. O dono da lanchonete me atendeu e pediu desculpas, como se ele fosse o culpado daquele tratamento. Eu disse a ele para ficar tranquilo, que estava tudo bem, mesmo sabendo que aquilo não era natural, apesar de ser normal em todas as periferias, pois somos apresentados cedo àqueles tipos de profissionais do estado.
O bate papo reiniciou com lamentações, mas, bola pra frente..., e massagem nas canelas.
Um tiozinho chegou e logo foi desafiando todos, a uma disputa na sinuca, mas, em melhor de três. Claro que arrumou um oponente e o clima começou a melhorar. Com isso desceram mais cervejas, conhaques, rabo-de galo, amendoins...
Palpites começaram a surgir como se o Rui Chapéu, estivesse ali, instruindo um aluno, fazendo sempre um dos jogadores ficar com raiva, enquanto o outro sorri. Minha cerva era a terceira.
Já tinha dado algumas risadas também, afinal tinha sido pra isso que fui à lanchonete..., bater papo, tomar uma gelada e me divertir, principalmente, com a derrota dos times de futebol..., dos outros, mas, como tem dias que parecem noites..., dobraram à esquina outros homens fardados. Alguns deles a pé, e alguns a cavalo. Os cavaleiros ficaram em frente à lanchonete, apostos, os outros entraram, com armas à mão, mas, apenas dois deles, sendo que não tinham nossas cabeças como alvo.
O que entrou primeiro pediu os documentos e verificou um por um, com outro fardado ao lado, que tinha uma metralhadora niquelada em punho, mas, mantinha um olhar tranquilo.
Chegando minha vez, ao se aproximarem entreguei a identidade que conferiram e um deles perguntou de quem era a mochila sobre a mesa. Respondi que era minha. Ele pediu para abrir os zíperes e olhou todo o interior. Esticou a mão, pegou um objeto que estava no fundo e perguntou:
- Isso aqui e do seu filho?
Respondi que não, que aquele objeto era meu. Tinha comprado de um artista de rua. Um artesão que faz lindas obras de arte com alicate e arames. (Era uma aranha com o dorso de pedra vermelha).
Ele pediu para fechar a mochila e foi se afastando com a aranha metálica na mão. O guarda-costas dele, sempre ao lado. Chegando à porta da lanchonete, retornou a minha direção, esticou a mão sorrindo e me devolveu a aranha metálica.
Saíram, ele, os cavaleiros que estavam do lado de fora, o guarda costa e os outros fardados, tranquilamente, nos deixando com a mesma paz que estávamos, antes da chegada deles. Fizeram o trabalho que tinham a fazer e nos desejaram, boa noite. Todos desejamos o mesmo.
Existem fardados que se orgulham de servir, proteger e fazer corretamente, o que escolheram de oficio. A eles, todos os cidadãos de bem, desejam as bênçãos de Deus.

Marcio Gleide Nunes dos Santos
Curitiba-PR 16/07/2017


Revisor: Olinto Simões
meu bolo de 6 andares
minha parede de rosas
12 lustres de cristal
sua panela vazia
sua falta de emprego
sua mão a me pedir
ovos, ovais, ovalados
no meu vestido bordado
por mucamas em sangria
obrigada, meu deus pai
obrigada, meu deus filho
espírito santo amado
que a este povo punir
com a fome não é muito;
que a este povo entregar
um grão é suficiente;
obrigada, santos tantos
curitiba, paraná
onde meu pai é devoto."

RR

sábado, 15 de julho de 2017

""Me gusta y me fascina el trabajo. Podría estar sentado horas y horas mirando a otros cómo trabajan." (Jerome Klapka)"
""No creo que tengamos opción de elegir si vivimos o no en una ficción, la opción es en la ficción de quién queremos vivir." 

Alan Moore"
"En una conferencia con el presidente del estado, un periodista le pregunta al presidente: Señor Presidente, ¿es verdad que nuestro país sufre crisis económica? El señor Presidente dice: No, no, por mis investigaciones, tan sólo 6 personas sufren crisis económica" El periodista pregunta: ¿Cuáles? Muy sencillo, yo, tú, él, nosotros, vosotros, ellos."

NK
""perder amigos é perder pétalas." khatembe"

MONSTRO DA IGNORÂNCIA


“O Rumor é uma gaita assoprada pela desconfiança, pela inveja, pelas conjecturas; é de tão fácil e simples dedilhar, que o bronco monstro das inúmeras cabeças, a multidão, sempre inconstante e volúvel, a pode facilmente tocar.”

William Shakespeare

Nos lupanares da insignificância
Recolhe-se demente e satisfeito
O depravado monstro da ignorância
Sobre a carniça dum promíscuo leito;

Amortalhando o pensamento estreito,
Em que ao mais leve sopro de inconstância,
Esquece com prazer o que está feito
Nas ondas da soberba e da arrogância!

E como se esculhambam de repente
As excelências das ações mais puras
Na boca atroz da multidão que mente:

O certo é não ouvir seus tons mordazes,
Pois fodem o melhor das criaturas

Co’a fria insensatez de suas frases!


David Moura   


a palavra

vai

a

a pregu

iça:

v e r

te x to

longo

e

curto

.

Lonatopoeta De Lima Batista    
""é tão íntimo esperar-te na pele de uma estrela." Khatembe"

E s c r e v e r


(Tony Saad )

Escrever
é um modo educado
de sangrar pelos dedos.

Há um esvair-se
a cada letra
pingada no papel.

É também um jeito
de costurar feridas:
há algo em cada verso
que me cicatriza.

Estranho instinto, este:
meio suicídio
meio cirurgia
que num só gesto
me corta e me costura.

Mas sempre dói.


"Recolhedores"


Quando a vida me pareceu
sobras de um grande furto,
descobri os generosos de fato:
- Os viciados da noite
que abandonam pela metade
malboros pela sargeta:
café da manhã dos mendigos;
- As xepas das feiras livres
Em louvor às santas mães prisioneiras da fome
que se enfeitam de dignidade
calçando sapatos rotos de uma madame;
- O desapegado amor das putas;
- O descarte do oponente à mesa do jogo:
se você é um “recolhedor”,
fecha a canastra e bate.
Sem perplexidade, sabe: está tudo em seu devido lugar.


(Barbara Braga)

J’accuse!


Tony Saad

Foi você
Quem gastou meu passado,
Roubou meu presente
E escondeu meu futuro.

Foi você
Quem guardou meu pecado,
Beijou a serpente
E derrubou meu muro.

Foi você
Quem se deitou de lado,
Me amou de repente
E me arranhou no escuro.




Todo ser humano que se prende , filho

Terás como destino

o oficio

de uma aranha

e como ela

viverás preso

Pela eternidade

A uma teia!!

Jair Fraga


PLACEBO


"Rasgas os meus versos... Pobre endoidecida!
Como se um grande amor cá nessa vida
Não fosse o mesmo amor de toda gente!"
(Florbela Espanca)

Soluços sufocados, mãos crispadas,
Mil grutas dentre o peito, nebulosas
Qu’expandem e se encolhem alternadas,
Inflando-me as moléculas nervosas...

A vastidão de um sonho malsinado,
Falácia sem sentido e essa cegueira,
Que rende a nós somente um triste fado
E dores que se tornam rotineiras...

Teimo em manter os olhos ora enxutos,
E a voz então insiste em se calar.
Cultivo sentimentos que são brutos,

Destarte ‘inda eu não soube lapidar.
O amor se faz presente, esse resiste,
Malgrado o jeito meu de estar tão triste.

(Magmah)Sara Beatriz Reis
""Busco-me nas palavras sem barulho." (Khatembe)."
Resto de pão é grão
Resto de pano é trapo
Resto de madeira é toco
Com os quais outras coisas faço.
Resto que o tempo carrega,
Resto que se refaz.
Resto que volta atrás.
Coitado do resto que cai
Num buraco profundo,
Que fica perdido no mundo
E não volta
A ser outra coisa jamais!
Assim também somos feitos
E assim seremos e ficaremos:
Um resto que se refaz.

Catarina Almeida Garret Caramuru


Migalhas



O homem que pisa
a lama da estrada,
o homem que se debruça
sobre a calçada,
é um homem que sofre,
chora e se cala.
O homem que suplica
uma migalha de pão,
deve ter ainda
uma migalha de esperança,
procurando igualar-se à uma criança
sedenta de amor e afeto
que pede para sobreviver.
Pede as mesmas migalhas de pão
que joga fora seu irmão.


Leonor Borges Vieira 

HAICAIS


*Quando uma roseira,
nos galhos exibe rosas,
um poeta se inspira!

*Olhando o lençol
das águas cobrindo o mar,
em jangadas penso!

*Pisando a areia
da praia atrás de conchinhas,

a Deus agradeço.

Eliane Arruda 
No deserto da vida eu erro e ardo
a gemer sob o peso do meu fardo,
mas em algum lugar quase esquecidos
sei de frescos jardins em sombra e em flor.

Em algum lugar, nos confins do sonho,
sei que um abrigo vela
onde a alma volta a ter pátria
e estão a espera o sono, a noite e as estrelas.


Hermann Hesse

O Dom da Vida


Algo que se move,
é vida.
Algo que canta,
dança,
murmura,
ri ou chora,
é vida.
A vida é a natureza
que deslumbra
o universo.
E o homem,
com todo seu valor
e defeito,
faz parte desse Universo.


Leonor Borges Vieira
No fundo dos nossos corações,
cada um de nós carrega a semente
de um sonho secreto,
especial e único para cada pessoa.
As vezes, outra pessoa
pode compartilhar este sonho
e ajudar-nos a realizá-lo;
outras vezes o sonho se torna
uma perseguição solitária, conhecida apenas
por seu dono. Mas secreto ou compartilhado,
não importa como for,
um sonho é um potencial que
nunca deveria ser desencorajado.
porque cada um de nós também carrega dentro de si
uma luz que pode fazer a semente
crescer e florescer,
transformando-a numa linda realidade...
a mesma luz que vejo brilhar
tão claramente em você.


Edmundo O'Neill

ONISCIÊNCIA


Sei como tu és
Da tua mente
Do teu coração

Sei o que tu queres
O que tu sentes
Da tua aflição

Confessa estar comigo
E por ti, serei
Sou teu Pai, sou teu Amigo
Eu sou teu Rei

Sei da tua história
Da trajetória
Da tua oração

Sei o que tu busca
A tua labuta
É declaração

Testemunho vivo
Para honra e glória
Pescador de mil almas
Segue rumo à tua vitória

Abrir-se-ão seus caminhos
Para um novo amanhã
Jamais te deixarei sozinho
Mesmo em belas manhãs

Sei que te perseguem
Mantenha a tua oração
Teu propósito é Comigo
Eu te carrego nas mãos
És ovelha escolhida
Muitos te seguirão.
               
Alex M. Tavares__________Poeta Urbano

ONISCIÊNCIA | Poeta Urbano - Porque as letras jamais nos deixam vazios.


poetaurbanoba.blogspot.com

Vida


Vidas são só intervalos.
O sim entre nãos, expresso.
O que há entre o berço e a lápide.
Tempo cifrado em compassos,
a que chamamos música,
o som que por notas ecoa.

Munch, entre gritos, silêncio.
O vazio entre o discurso
e o aplauso.
Susto entre o passo e a queda.
No entre - braços, o abraço
que pelos dedos escoa.

Se o Universo
se expressa em pulsos
E medita-se entre os sons,
o intervalo entre os mantras,
isto não seria vida?

Podemos pensar então
que há algo no não
entre os sins,
além do que é negação?

(a noite traz no estojo
o lápis que desenha o dias.
E a pausa assim como ritmo
dá a cor à melodia...)

Há algo entre a lápide
E o berço?

Prece,
entre as contas de um terço.
Possibilidade insuspeita,
entre as oportunidades,

Tantas!


Ruth Cassab Brolio 


A flor que desbota outono, cor ao quarto.
Seus olhos, aquários dentro do mar
em mim, sonho da noite que passou
pelas frestas e não nos esqueceu.

Bebemos o branco dos lençóis,
lembra? Cortinas cinzas ou era o céu?
Sua pele me estalando vazia
por cima do carpete do hotel.

Era um quarto de muitas paredes
e duas portas, onde não havia saída
- nunca deu-me nenhuma, recorda-se?
Sua carta aberta, criado mudo,

um chover de silêncios na espera
do fim que se arrastava e você,
você meu beijo, longo, urbano, Sol;
pôs-se alêm de mim, desdourado

numa fotografia do que não foi.

Vivian Nascimento     


Sorvo e Tormenta


Pedro Penido

Tomo-te nos braços
e trago do sorvo dos lábios teus.
Feito vento de tormenta
em nau de náufrago dissabor,
louco até o fim do mundo,
tão perto de ti, tão longe de deus.

Flâmula negra e flâmula escarlate
num baile de canhões e morte
um usa a esgrima, o outro a arte.

Olhos de falcão pela lâmina afora
em duelo de golpes de sorte
enquanto o desejo-tempestade aflora.

Tomo-te nos braços
e trago do sorvo da boca tua.
Feito vento de tormenta,
em mau e trôpego ardor,
escorre a lâmina na carne nua.


as coisas são o que são
e vivem num desvão
escorregadio dentro de nós
um dia vomitamos nossos girassóis
na cabeça do mundo
mas cadê que o mundo deixa
se sujar por uma flor?
ele usa guarda-chuva
guarda-sol
guarda-pó
espremedor
espreme a flor
com inseticida.
o mundo é plástico, prático
e assustadoramente hermético
não beberica pétalas como
o beija-flor.
não tem metafísica como o beija-flor.
as coisas são o que são
o mundo é o que é.
Lázara Papandrea