quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Lira de marfim



Reflexo de mim
Em si, divaga e vaga
Logo ali.

Teus passos avessos,
Espessos compassos
Que faço ser sãos

Ademais canção,
Transcendência fica
Para depois.

Humanas glórias
Aos olhos de um deus.

As ondas quebram
Símbolos espumados
Em pedras brutas

Clichês bailam em
Minha mente

Anoto um fio de graça
Na pauta do vazio

Por sobre os candelabros
Laicos, esvaziam-se sóis

Contemplo o adeus ritmado
Que dança

Em parcelas.


ACM

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

MARQUÊS DE POMBAL



Sebastião e Melo, Marquês de Pombal,
que foi Ministro d’el Rei D. José primeiro,
homem influente nas leis de Portugal,
tem porta aberta em Lisboa ao forasteiro!

É majestosa a estátua lá na praça,
e com seu nome dão ao sítio o lugar.
Será que o Leão e ele, acham graça,
do metro que por debaixo está a passar?

Marquês, dás sempre mais alma a quem lá passa.
És palco principal das manifestações!
E os que de ti ainda hoje dão chalaça

são de Lisboa a incúria e a desgraça…
E tu, Marquês, na figura de tanta raça,
dás a todos os Lisboetas as Saudações!

Joellira
28.06.2011
(soneto) . bilhete postal


Palavras soltas



Solto palavras sem nexo,
Que voam no dorso do vento para destino incerto,
Talvez em busca do branco do papel,
Para nele se tornarem frases de amor;
Só sei que elas, agora nada me dizem,
São retalhos do tempo passado
E que se querem afirmar no tempo de agora,
Talvez na ilusão de que mudarão algo
Neste mundo, sem palavras de amor,
Mas de acções de guerra, sem palavras;
Diálogos que se perderam nas vontades
E se tornaram frios nas inimizades;
Palavras, sem rosto, nem expressão,
Na frieza do papel em que estão inseridas,
Que só serão sinceras e carinhosas,
No abraço amigo, apertado e fraterno;
Palavras ditas olhadas nos olhos,
São palavras afectivas, sem serem escritas!
Espero pois, que as minhas palavras
Que voaram com o vento,
Tenham chegado a um bom porto
E encontrado o papel e a cor da paz e alegria;
Se assim acontecer, as minhas palavras
Antes sem nexo,
Serão palavras de profundo amor.

José Carlos Moutinho


BELO HORIZONTE


Se olhar para trás eu tenho saudade,
De tempos vividos,
De cheiros...
De faces que conheci...
Tenho saudade da voz de minha avó,
Quando raiava comigo,
Quando eu tomava banho no rio...
Saudade do bolo de fubá...
Saudade das férias na fazenda...
Do cheiro de mato,
Do olhar na estrada perdido...
Em tanto verde da mata,
Outrora ouvia os sons dos passarinhos,
Tão misturados,
Variedades de cor e som...
Hoje parece tudo tão distante,
Doces momentos,
Que ficaram para trás,
A prova concreta,
Que tudo passa na vida,
As pessoas passam,
Eu passarei...
Os passarinhos passarão,
As matas,
Será que essas permanecerão?
Espero que:
A saudade não me detenha
No tempo que passou
E não volta.
Tento esperar pela nova aurora,
Quem sabe novos tempos?!
Novas pessoas
Também chegarão,
Antes que outros vão embora...
Quero ser a presença,
Na lembrança
De alguém quando passarei...
Quero ser as mãos
Que acariciam,
Quando alguém precisar
Do ato de generosidade,
Em doação...
Queria ser o sol,
Quando fizesse chuva
No seu horizonte...
E quando puder ser tudo isso,
Olharei para cima e verei
Um Belo Horizonte.


DEUNICE MARIA ANDRADE DE LIMA.

Flash urbano



Chove na cidade
procissão de guarda-chuvas
em romaria.


Ricardo Mainieri

Metamorfose ou Da infância perdida

Wender Montenegro   


Não há fronteiras na infância...
Na manhã clara onde o sol,
empinado pelos sonhos
de um poeta-menino,
faz todas as línguas, pardas;
todos os verbos, possíveis,
não há segredos de estado
e a verdade é professada
entre risos machucados.
Não há pátrias nem guerrilhas
quando a vida veste o branco,
sujo de todas as cores...
Mas eis que relincha o tempo!
Este intrépido alazão,
com suas crinas de vento,
leva a inocência a galope
sobre as carnes do arco-íris...
Nos telhados da libido
galos e dentes-de-leite
tocam clarins: ao sol posto,
sobre um tapete vermelho,
a menarca e seus mistérios...
E a boneca – companheira
da inocência – em abandono,
parece acenar “adeus!”:

Vênus de Milo da infância.

CAMINHO

 (Paulo Sabino)

tudo o que é vida
me incita
- à sua luz,
pele pupila papila narina,
tudo se potencializa -.
a verdade destituída
de verdade:
no fundo, puro embate.
por isso assento,
vivo o meu alento
enquanto há tempo:
pois que tudo passa,
e, passando, de nada,
de vez,
me amassa a desgraça.

(aí está da vida a graça:
as desditas
aprimoram-me
às conquistas.)

o que há para viver? turbilhão?
uma luz anêmica na escuridão?
a blusa com falta de botão?

mas a vida é isto!:
por maior, mais robusto o quisto,
conduzo-me pelo que foi e é dito,
pondo mais peito no que me insisto.
sem mais história:
o lance é cravar a vitória
com ou sem gol.
assim eu vou.



Mãos de meninos



em esquinas e becos
tem mãos de meninos
que roubam
que matam
que morrem

na pele, no osso
o medo, o terror

e na noite vazia
tem nas mãos de meninos
pedra, punhal

ou serão
gotas de sonhos
que não germinaram

com os sentidos bloqueados
entre lama e fantasmas
o que tem no abandono
é o belo em carrancas

que traduz o escuro
o avesso da vida
corroendo a alma
com total dissabor

e nas mãos de meninos:
pedaços de nada
a bandeira da dor

Cláudia Gonçalves



ÁLIBI DA ESTUDANTE DE DIREITO



- Você estava acompanhada quando tudo aconteceu?
- Não.

- Você estava aonde?
- Na lua.

- Você sabe que é suspeita de um crime, não sabe?
- Sei.

- Então você não estava presente no local do acontecido?
- Não.

- E onde você estava?
- Na lua.

- Fale a verdade, menina.
- Já disse... na lua!


O policial, irritado pela situação, deu dois tiros na cabeça da menina e mandou velarem o seu corpo num quintal de júpiter.

Marte fez a festa.

Lucas Reis Gonçalves  

Palavras que o vento te leva



Peço ao vento que me toca o rosto,
Que te leve as minhas palavras,
A ti e que penetrem no teu coração,
Como elas brotaram do meu!
Desejo que te sintas tocada
Pela mais doce e sensitiva ternura do meu querer;
Que as minhas palavras levem todo o meu ardor
E incendeiem o teu desejo;
Repara nas folhas das árvores que te cercam,
Elas têm os meus gestos de carinho,
Aproxima-te…
Ouvirás o meu murmurar através delas;
Sentir-te-ás abraçada por mim,
Nos ramos que te envolvem;
Olha com atenção a luz translúcida do sol,
Verás o brilho dos meus olhos,
Clamando por entrar nos teus!
Quando na penumbra do teu quarto,
Sentires o afago de mãos nos teus cabelos,
São as minhas em forma de sonho,
Dizendo que estou contigo,
Em pensamento!
Se sentires calor pelo teu corpo,
É o meu envolvendo o teu;
E o meu amor te protege
Mesmo distante.

José Carlos Moutinho


TAÇA N°6


irradia o mistério da beleza
renascendo no simples mortal
esperança tristeza e alegria
nessa magnitude celestial
envolvida pela sabedoria

respirando vidas
entre carinhos inacabadas
rindo solta idolatrada
divina mulher menina
resplandece nas estrelas
acordes do violino amante

devendo vida ao sonho
embriagando a poesia
urgida da solidão
sente o corpo explodir
ardente Deusa do Olimpo




Milton Gama

SALDOS DE VIDA

 - Sílvia Mello

Acordei
fantasmas flutuantes
em esquinas
luzes esquecidas
saldos de vida

Escalei
degraus de pedra
cantigas de coragem
em mesclas ardentes
de arco-iris

Entornei
desordens
em sinos ao meio-dia
destinos
num apito de fábrica

Colei
avisos
em campos floridos
palavras de vento
tocando consciências

Ganhei
bilhetes
de um circo imaginário
danças de descanso
num carrossel.

Do blog Olhos nas Estrelas:


TAÇA Nº3



sinto o sentido
dessa forte explosão
ressoando estremecendo
as cordas do coração

invadindo nosso corpo
eletrizando explodindo
como larvas vulcânicas
queimando
esse gozo animal
essa vida natural
essa força celestial
acendendo
fervendo nas entranhas
dos nosso corpos amantes
é a paixão
sinto e sentindo
vamos explodindo
em mil cores esse amor




Milton Gama

ESTRADA PERDIDA



Seu espinho uma vez mais alcançou meu coração
Sangrando os meus sonhos, eu caindo em prantos!
Eu sei que sou capaz e vou tentar uma vez mais.

Nunca vou desistir sempre vou seguir
Aprendi que ao cair, levantarei voando...
E acreditar que sou gente, voarei como uma aguia...

Eu Tranborndando! Um mar afogou minha alma.
Que mais uma vez vou me levantar, e voar sobre o mar.
Enquanto estiver folego, irei buscar o meus ideais.

Nesta guerra, vou em busca da minha vida
Meu eu dentro de mim se esconde, com medo...
Mais minha alma corajosa me implora! vai
Faz-me acreditar que e capaz

Assim vou seguindo uma vez mais
Em meus sonhos so me encontro em prantos
Meu coração magoado e sangrando, sobrevive!
E luto ate a ultima gota, a procura da minha estrada perdida.


Eliza Gregio

Candelabro…


(Sonia Cancine)
.
Ouço...

Em dias que escorrem pugna
“una música brutal”
ante (dor insuportável) de ansiar morrer
nas caixinhas delicadas uma duvida:
Homessa...

Ouço músicas e aproveito dádivas do Sol
na vivenda ilhéu, meu “beat” estrangeiro
de devaneios aspirantes camembert.

Outrora, aqui estrangeira
já vi o que inda não vivi
e senti o que jamais verei
de biografia por vezes euforia
difícil é viver e mais ainda saber.

Que nem candelabro de ouro puro
careço de luz e pétalas de flores
de hastes e de botões
na sombra a descansar...

Numa haste quero um botão e uma flor
obra batida que se fará lâmpadas

Conforme o que me foi apontado no Monte.

Assim, quando me olho sem velas aquecendo este ínfimo...

Sinto medo das verdades, das intuições e do escuro.



                

Prece



Senhor,
livrai-me dos ismos
fronteira de abismos
mas não da saudade.

Que o saudosismo
é vício da alma
veia de escapismos
de quem tão sem calma
ficou no passado
do lado estragado.

Senhor,
livrai-me dos ismos
quaisquer fanatismos
mas não da saudade

Se fosse... Não foi.
Ficou, se enterrou
viver sempre doi
dor de narcisismo

E nenhum passado
é mais que o presente
para quem não sente
a estrada do tempo
não há escapismo


Segui-la nos resta
o resto se empresta:
de trapos de infância
faz-se reciclável
intensa esperança
futuro provável
sem pragmatimo


Senhor,
livrai-me dos ismos
sombrio niilismo
mas não da saudade

O absolutismo
não quero, em verdade,
prefiro a quimera
num chá de maçã
futuro, e, nem era.
Mas algo me espera
e sempre é amanhã.
via do lirismo
da regra a exceção

Senhor,
livrai-me dos ismos
mas não da saudade
eu só quero breve
pouca eternidade
como pluma leve
planando em eufemismos



Elane Tomich
T.Otoni, 04 / 2011



         
Homem de gêlo
Perigo no poder
descaso no sentir
fracasso no agir
Verbas em carnavais
festas com custos de dor
tim tim do desamor.

Homem de gêlo
Coral afinado de correligionários
Miséria do povo para altos sálarios.


Homem de gêlo....Aval...Nosso voto!

Flavio Martinez Sol

Noites de lua cheia


Em certas noites de lua cheia,
Monto o meu cavalo de sombras que há,
E cavalgo as planicies da ideia,
Ate me perder por la
X
Atravesso cidades desconhecidas,
Sem ver o rosto da gente,
Eras no tempo perdidas,
Em que ate,o tempo e diferente
X
Assumo vidas diferentes,
Como andante cavaleiro,
E deslizando entre gentes,
Viajo,no mundo inteiro
X
Tudo o que vejo e eu,
Sombras de mim,
Vindas de um escuro de breu,
Mas viscosas,como cetim
X
Cavalgo rápido como o vento,
Montanhas mares e desertos,
Vivo séculos,num so momento,
Em mundos por mim descobertos
X
Sobrevoo lagos profundos,
De aguas negras, agoirentos,
Tudo em sombras e tons cinzentos,
Que são a cor desses mundos
X
Lugares de paz indestrutível,
Onge tudo e imaginado,
Onde a guerra mais terrível,
E um cenário pintado
X
Transformo emoções em realidade,
Para encher o vazio,
Viajo entre sombras,em liberdade,
Por mundos,que ninguém viu
X
De dia,
Sou uma anémona transparente,
Esguia,
Passo,indelevelmente
X
Ate chegar ao meu mundo,
Das sombras,sombrio,
Agoirento e profundo,
Em que me,delicio
X
Por vezes isolo-me no mar,
Sem ameaças por perto,
E deixo-me navegar,
De espírito aberto
X
Anulo tempestades,
Ofereço-me so,calmaria,
Cortejo lindas divindades,
Em lânguida,monotonia
X
De repente,estou na China,
Numa montanha perdida,
Observando uma pétala que germina,
Na amendoeira da vida
X
O primeiro raio de sol que recebeu,
A alma que se incendiou,
Carrego tudo,quanto me deu,
Monto nas sombras,e vou
X
Renasço numa viela perdida,
Num raio de luz de um nascimento,
De uma chamada perdida,
E de mais luz,me alimento
X
Cavalgo as ruas da cidade,
Sem parar,
Vejo luxúria maldade,
Vejo lua e vejo o mar
X
E na escuridão total,
Vejo pontos luminosos,
Como estrelas e natal,
Sobre presépios grandiosos
X
Sempre andando,
Por os cantos da mente,
No tempo saltitando,
Para trás,e para a frente
X
Num laivo de prazer de uma que passa,
Eis a chama,que se reprova,
Aquela centelha devassa,
A alma,do casa nova
X
Mundos libidinosas,
Que percorro de repente,
Contactos voluptuosos,
Mas cavalgo,e sigo em frente
X
Prendem-me a atenção uns rumores,
Uma queixa desejada,
E uma,que presta favores,
Meio em pe,meio deitada
X
Sigo o caudal do desejo,
Ávido e profundo,
Ca de cima bem que o vejo,
Girando em torno do mundo
X
Lava borbotando,
Nascida de erupções atómicas,
Em vida se transformando,
De proporções astronómicas
X
Na minha letárgica solidão,
Entre mundos pardacentos,
Perdido na imensidão,
Sombra negra,em tons cinzentos
X
Ate que vi ao passar,
Um azulejo antigo,
Com uma quadra popular,
De um caaleiro meu amigo
X
Fiquei a rebentar de emoções,
Nem me cabiam no peito,
Mas la fui aos tropeções,
Fui por ali,a direito
X
Eis que finalmente,
Encontro gente acordada,
Cavalgando também entre gente,
Em qualquer linha deitada
X
Em mundos do Adamastor,
Perseguindo ilusões,
Com ódio e com amor,
O fera doce,o Camoes
X
Quem poderá entenderesta doçura,
Falava a sos envergonhado,
Couraçado de armardura,
Tendo nrnhures a seu lado
X
No reino da miséria luxuosa,
Poor seu brilho enriquecida,
Entre nobres,de nobreza duvidosa,
E de riqueza,empobrecida
X
Ouro r luz la vai espalhando,
Cartografando vida espiritual
Entre gurras de quando em quando
Vai dando alma a Portugal
X
O ponto de partida,
Onde os sonhos habitam,
O porque da vida,
De que os sombras necessitam
X
De aqui parto,mas não vos deixo,
Como cão que não morde mas ladra,
Que agora lembrei do Aleixo,
E uma qualquer sua quadravia mais com um so olho,
E com uma pena escrevia,
Que muito,sem ser zaralho,
Mas na miséria vivia
X
Parecia ruína a sua sorte,
Os apostulos são assim,
So que se livram da morte,
Meu Deus quem,me dera a mim
X
Cavalinho cavalinho toca a andar,
Que há muito ainda que ver,
Não va agente parar,

Que parar,e morrer.


Antonio Pinto L               

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Vale químico do palco



Nos vãos dos muros,
- frestas - de luz
Que nos cercam
Ouro, gradativo,
Holofotes, verbo,
Reflexos em um
Espelho mudo, platéia

Regurgita fel, pus e sangue
Na platéia
Que o come com olhares

Banquete de informação
À luz da canção de si,
Putrefação
Comem carniça teórica
Então.

A graça jaz perene em
Hospitais psiquiátricos
Poupando luz e gestos

Intelectuais e loucos
Entabulam-se em planilhas
Do ser em si

Todos certos de que
Estão com a razão sobre tudo.


ACM

o lápis


Para Antonio Cicero

o silêncio perdido
na sala... papéis?
seis contos de réis
compram todo olvido

enquanto decido
que cor tem o céu
de grafite. ao léu,
um giz branco, obtido

na escola, me diz
que eu era feliz.
(a nuvem não erra...

o lápis a encerra?)
num só movimento,
no lapso me invento!



Adriano Nunes 

terça-feira, 28 de novembro de 2017

O cão
em repouso
sobre a calçada.

O homem
em trânsito
pela tarde urbana.

Minha face animal
está ferida de civilidade
e late sem consolo


Ricardo Mainieri 



do livro "Poemas que latem ao coração", organizado por Ulisses Tavares e Louise Mel

(Des)utopia



(Im)possível
tecer utopias
num mundo em que o silício
subtraí o silêncio?

(Im)possível
costurar - aos trancos –
bytes & células-tronco?

Pois se tecnologia
avante
pensamento diverso
pé ante pé...

Assim
nem sonho o avesso
almoço fast food
me avilto.

A realidade
reles (a)corda
a se des...in...te...grar...



 Ricardo Mainieri             

Via crúcis




As ruas de Brasília
não tem nome,
marcadas como prisioneiras
num campo de concentração,
obrigadas a trabalho forçado,
aguardam ansiosas o seu Dia D.

Este foi inspirado na obra do Nicolas Behr.





 Milton Júnior  

FLOR NO ASFALTO



NASCI NUM CAMPO DE ESPERANÇA
EM MEIO A RELVA MOLHADA.
TERRA FERTIL,
PASSÁROS CANTANDO
AO AMANHECER,
A FLOR SE REFAZIA,
A ALEGRIA DE VIVER!

E QUANDO NOITE,
EM MEIO A VENTANIA
BAILAVA...
QUANDO FRIO SENTIA,
TU VINHAS
EM MEUS SONHOS...
E ASSIM ME RESGATOU DE
TEMPESTADES!

EM SUAS MÃOS
PLANTEI MEUS SONHOS.
A ESPERANÇA SE DESFEZ EM LEMBRANÇAS,
O SONHO DE VIVER...
HOJE, RESTOU-ME A ARIDEZ DO ASFALTO,
O VERDE SE PERDEU NA ESCURIDÃO
DA NOITE QUE PERDI SUA IMAGEM.

Regina Celi/Cel Sales Março/2011


APRENDIZAGEM

 (Paulo Sabino)

Lição aprendida:
palavra:
coisa estranha
sua carne
compacta
espessa
maciça e
ao mesmo tempo
porosa
ventilada
esponjosa
— matéria excêntrica —

Não há modo de
averiguar
constatar
dimensionar
o que encerra
seu sarcocárpio
(cujo cardápio
de achados
não se abre
por completo
a nenhum olho)
tantos os significados
soltos
no ar
da página



Escorregava pela Terra



escorregava pela terra
em uma fresta aberta
no incógnito profundo
como no sonho sem rumo

sua pele em escamas
sucumbia ante as pedras
sussurrava entre dentes
uma prece de medo

sua cabeça era enorme
zumbia como um enxame
temia que se rompesse
suas pernas oscilavam

sobre o vácuo estreito
não sabia ao certo
que vício lhe pesava
a água passava por perto

ouvia o som tão vizinho
estreitava-se como uma vara
entre tensos labirintos
suas mãos o protegiam

das tumbas salientes
rochas frias competiam
com sua face desfeita
cada degrau invisível

buscava suas carnes magras
a dor fina silente
a companheira de sempre
nas vizinhanças do Hades

topou com Orfeu decrépito
mal dedilhava sua lira
Eurídice uma dura pedra
fingindo-se desperta

o sino tocava
na catedral de fogo
as chamas lambiam
seu corpo magro e torto

a mulher vestida de negro
fixava nele seu olhar
ele deixava-se levar
na busca do seu ventre
seu odor o atraía

Abilio Terra Junior

UM RIO OBSCURO



vai um rio de sangue dentro do meu cérebro

vai a correr em direcção ao abismo

vai um rio dentro do sangue e já fora do meu cérebro

vai nascer um abismo dentro do meu cérebro

um abismo com sangue e substâncias químicas negras

é um rio

eu gosto de rios

eu gosto do abismo

eu gostava de ter um vestido vermelho!


Alice Caetano 

"fisiologia"




res-
piro poe-
mas pond-
ero:

sou sinc-
ero:
às vezes,
verso.

olho por
olho, lá-
bio, língua,
lácio.

rever-
so? tato,
áudio e...
me salvo!

Adriano Nunes



segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Cuidado com a mula.



Sub parcelado em
Efemérides ilustradas
Em querelas de Estado
Evocado ou atinado
Sem necessário
Símbolo ou lógica
Qual retrato do real
Exorta à lua e retine
Remedia o tédio
Corriqueiramente
A dialética nos salvaria
De nós mesmos
Em redução animal
O calvário da esperança
Colosso sequestrado
Pariu e partiu sem
Demorar-se no banho
De ilusão coletiva
Reflexos de consciências
Lampejam na madrugada
Dos imperitos passos
Em busca química
Da sabedoria mental.
Jaz crença, lenda, mito
Aos olhos carnais
Maldições ancestrais
Eternas agonias
Povoam o imaginário
E também o real
Um deus existente
Livre essa gente
Do encontro com a
Face horrenda de si
Mesmo sem crer
Ela observa por trás
Do véu da noite
Reivindica a piedade
À obscuridade
Do seu mal
Mais íntimo.

A civilização conta
Seus dias contados
E eternos eles povoam
Os ralos do universo
E vagam em busca de
Si mesmos
Uma face, um grau
Já não habitam
E já não
Se interessam por política

Cuidado
Tua solidariedade
Não será moeda, óbolo
De troca, não há ética
Entre os seres do submundo
Da real imaginação
Portal venoso
Natureza virgem
Perene de sol
Carente de civilização

Interior.

ACM


Cimo de si



Aos respaldados
Aos fragmentados
Enluarados de si
São, versos, dispersos
Por olhos, focos
Metas jornalísticas
Proto artísticas
E clichê
Eu, águia, eu abutre
Eu, eu,
Cérebro, coração, mãos
E poder, caneta, teclas
Regras, cadências,
Estilos

E um vazio, que o teu
Não vai resolver.

ACM


segunda-feira, 20 de novembro de 2017

"Um escritor aos 80 anos está começando a aprender a escrever."

Obs.: Ao completar 80 anos, sobre o ofício de escrever. 

[ Jorge Amado ]

"Invocação de Orpheu"


1.

O canto é minha explicação,
mesmo que diga o que não sei.
Sou o sentido do que se transforma,
do que resiste à petrificação

e não conheço o declínio. Ó vós que ouvis
o que vos diz Orpheu, sabei que tudo
repara o tempo, salvo a morte,
mensageira do escuro, poderosa,
que põe nos corações desde o princípio
seu germe vingador. Nenhuma Fúria
se lhe compara, nenhum sustento é eterno,
mesmo se subtraído à seiva que arde
nas veias grossas do mundo. Sois mortais
e vosso sacrifício há de ser grande,
que nada nos é dado sem o cobro
dos deuses.

Ouvi, no entanto, vós, que a ilusão
buscais sempre na vã agitação:
eu vos ensino a insubmissão do amor,
a inquietude que leva até o inferno
em vida, o êxtase, o delírio. Eu vos ensino
a dor e vos ensino a cólera,
que ela vos salve de vosso destino

menor e implacável. E vos ensino a glória.


De Marly Oliveira

Não tenhas nada nas mãos
Nem uma memória na alma,

Que quando te puserem
Nas mãos o óbolo último,

Ao abrirem-te as mãos
Nada te cairá.

Que trono te querem dar
Que Átropos to não tire?

Que louros que não fanem
Nos arbítrios de Minos?

Que horas que te não tornem
Da estatura da sombra

Que serás quando fores
Na noite e ao fim da estrada.

Colhe as flores mas larga-as,
Das mãos mal as olhaste.

Senta-te ao sol. Abdica
E sê rei de ti próprio.


De Ricardo Reis (heterônimo de Fernando Pessoa)



ESCRITA


ESCRITA,
é sempre você quem me resgata
do limiar do iminente nada
que borbulha
em camadas de pensamentos perigosos
e palavras,
cepas resistentes à droga da vida.
E no peito, que quase não respira,
(sobre o qual de bom grado recebo
o anel que aperta)
ouvir florescer
o buquê de promessas.
Assim, rainha
--- tão descalça quanto um rei de carnaval ---
sob os pés os paetês de brilho fácil
se extinguem ao passo
que a cabeça-balão-de-parada
a cada meneio exibe

o sorriso do enforcado.


De Claudia Roquette-Pinto

outra coisa



rastro de quase
resto de pouco
coisa que se sabe coisa
coisa de louco
coisa de gente
coisa que se torna ausente
coisa que sente só e tão somente
coisa alguma
amor talvez
quem sabe?
rastro de astro que me atravessa
estrela que me marca a testa
besta que se sabe bela
que se sabe ela
toda
fera
ao tempo que me rasga em mil
partes que se somam nulas
lembranças de um céu anil


rodrigo mebs >>>
«A literatura é o domínio do instável, miragem de eternidade que paira sobre a corrente dos anos e dos séculos. Um absoluto à escala humana: fica e passa».


J. Prado Coelho

Onde a Felicidade se Esconde



Passaram a minha frente, amigos e amores na mesma velocidade,
E como em um piscar de olhos, o presente mudou num estrondo!
E aquela poeira desta estrada que cegava minhas verdades,
Só me serviram para provar que este caminho é sem retorno.

Não vejo argumentos aceitáveis mesmo com isso de pregar o cansaço.
A necessidade persiste em ser com seus sonhos honesto e conservador.
Zelar para que seus propósitos lhe conduzam sem riscos a um espaço,
Entre o equilíbrio transparente do que você merece e no que é merecedor.

Mas acalme-se! Porque é normal toda incerteza gerar uma incansável busca,
E dentre inúmeros casos iludidos, razões inconstantes e falsos motivos,
Não se venda ao tudo que pode ser um bandido de seu valioso tempo.

Brinque com responsabilidade a vida num espírito de uma criança,
E descubra o sentir da brisa que anima a alma neste entusiasmo.
Faça o que gosta! Que a felicidade se esconde aonde sopra este vento.


Autor: Jorge Jacinto da Silva Junior

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

DOSE Nº. 2


para olímpia e enedino
meus pais


era uma vez um menino
menino do interior
amamentado com carinho
engatinhava na terra
solto petas ruas
tomava banho de chuva
na bica do sobrado velho
roubava fruta na feira
cocada na barraca do primo

era uma vez um menino
menino do interior
foi crescendo

livro na pasta
bola no campinho
expulso de escotas
andava pelos pastos
atrás de jumentas
amava também as meninas
o corpo chorava envolvido
entre o conselho e o castigo
severo dos velhos pais

era uma vez um menino
adolescente do interior
foi pensando

conheceu josé de alencar
beijou os lábios de iracema
viu jorge amado
amou gabriela
ouviu o cavaleiro da esperança
chorou com os capitães da areia
riu com monteiro lobato
passeou com érico veríssimo
olhando os lírios dos campos
sonhou com machado de assis
idolatrou castro alves
mordeu a isca da poesia

era uma vez um adolescente
adolescente do interior
foi pensando
andou com hermann hesse
vestido como sidarta
mergulhou nas florestas
em nascentes de rios límpidos
bebeu com Nirvana
ultrapassou os muros dos tempos
percorreu ruas das sociedades
envolveu-se com marx
papeou sobre as esquinas
visando tomeá-las
chocou-se em vielas

o peso da liberdade
fez na sua mente moradia
filosofou nos bares da vida
buscando sabedoria
afogou-se
em oceanos de frustrações
embarcações sem lemes
perdido entre perdidos
ironicamente anarquizado
viveu no cômodo mal-bom•viver
sentindo no luxo o lixo
sentindo no lixo o luxo
virou geléia geral
sob as fantasias dos líderes
serenamente evaporou
queria vida

era uma vez um homem
homem do mundo
foi vivendo

sem medo sem ódio
alto como o céu
cheio como a esperança
perpetuou-se na fortaleza
infinita da poesia



Milton Gama



"paisagem sináptica"

Adriano Nunes


funde-se à vida
o veludo do Olvido...
as horas se jogam
à existência e tudo é
corrosão, ausência,
aquela equação em branco,
aquela busca impossível,
aquele sonho de grafite.

então, desfeito
o instante,
restaria
à paisagem o pouso
sináptico de algo além,
um verso.
sim, um verso:
a prova concreta
da imortalidade

da alegria!


Relíquia



Era de minha mãe: é um pobre xale,
que tem p’ra mim uma carícia de asa.
Vou-lhe pedir ainda que me fale
da que ele agasalhou em nossa casa.

Na sua trama, já puída e lassa,
deixo os meus dedos p’ra senti-la ainda;
e Ela vem, é Ela que me abraça,
fala de coisas que a saudade alinda.

É a minha mãe mais perto, mais pertinho,
que eu sinto quando toco o velho xale,
que guarda não sei quê do seu carinho.

E quando a vida mais me dói, no escuro,
sinto ao tocá-la como alguém que embale
e beije a minha sede de amor puro.


António Patrício

Oráculo das mãos

Eliane Triska       


Voltei a orar num céu de muitas sendas,
E ascender no solar do coração,
Um mar com rosas brancas de oferendas,
O sol líquido da imaginação.

O horizonte ancestral, veio das terras,
Saliva no meu chão, beiço das hortas.
Que grande boca no engolir das eras,
Me joga à vida o peso das encostas.

Minhas mãos vassoureiras limpam cascas,
Nas cabeceiras mornas da memória,
Por águas fundas livres das borrascas.

A sós, viverão nuas como lanças,
E brincarão no céu a absurda história,
Como unidas assim, foram crianças!


Canoas/RS

Delenda Cartágo ou os Romanos são Filhos das Pûnicas



O Têmpora, o Mores .

( O temporal não demora

ou

Os romanos são uns filhos das púnicas )

O Cônsul Marcus Censorinus nada tinha de humanitário ou pacifista, contudo, por intuição, sabia usar “ da psicologia” quando tratava com os seus adversários.

Quando este habilidoso guerreiro-diplomata se apresenta diante de Cartago, a grande cidade já era conhecida, “ no mundinho” daqueles tempos, como a mais rica capital de então.

Nela, as artes e o comércio já eram florescentes, assim como um tipo humano conhecido como “ pacifista”.

Marcius, “ bom de papo”, após as honras de estilo, se quis fazer impressionar junto aos representantes do Colegiado Cartaginez e, em seu discurso, realçou os inúmeros benefícios decorrentes de um estado de paz e as conseqüências ( e aqui ele caprichou no empostamento vocal) determinadas por um estado de guerra e, habilmente ,pois era muito sutil, conduziu a sua “falação”, dizendo logo “ de cara “.

“Livrez-moi vos armes et Rome se chargerá de vous proteger”

Claro que o “qüera” não “ hablava” francês, mas esta foi a mais próxima versão que eu consegui da realidade histórica e que, traduzindo-se livremente , quer dizer mais ou menos isto:

“O!, meus chapas..

.Entreguem-nos os seus exércitos e eu lhes asseguro que Roma se encarregará das garantias necessárias ao pleno desenvolvimento do Estado Cartaginês.

“ Tá na cara” que houve um entreolhamento geral, após o que a unanimidade no atendimento ao sugerido chegou às raias da loucura....

Parece que apenas houve um voto contra...

O voto de um ínclito Senador ( ói eles aí ....) que confundiu raias da loucura com a Raia é uma loucura , e que temeroso de uma sanção conjugal, tomou a posição que tomou.

Contudo, sentindo que o terreno lhe era propício, Marcius já se assanha e sugere mais,usando a conhecida tática de” cerca Lourenço ...” e, sem mais delongas retoma o discurso.

Gente !!! E estas galeras !!! Para mim elas “já eram...”

Diante da nossa tecnologia de ponta, elas não são mais que um aparato , cuja manutenção lhes deve estar a custar “ os olhos da cara “... e , cá p”ra nós... , eu quero considerá-las mais do obsoletas...

Sem querer ferir suscetibilidades, eu me atreveria a dizer que são “ é mesmo inúteis" .

Repi te o tó . ...Inúteis....de vez que, por meu intermédio, Roma se está propondo defendê-los contra qualquer tipo de inimigo...., no atacado ou no varejo...

E, mais uma vez , todos se entreolharam (inclusive o mais entreolhador foi o Senador Claudius... o da Raia ) e neste entreolhamento, houve alguns entreolhares com aparência inteligente...,mas ao final todos aquiesceram, todos concordaram, obedecendo “ ao estímulo”.

Aí , o Censorinus , “ que era um morde-assopra de lascar”,meio espantado com “ tanta panaquice”, arremata desassombradamente:

A perspicácia dos nobres componentes deste Egrégio Colegiado; a visão de futuro que lhes está alicerçando as decisões, que tornam histórico, este momento, me autoriza – posto que me sinto diante de homens maiúsculos – a lhes fazer a ponderação final.

E , em seguida, sapeca, sem maiores meneios , o arremate.

Eu atrever-me-ia lembrá-los ( eu acho que devia ser lembrar-vos, mas p”ra este tipo de gente ...)que a aquiescência às sugestões de que sou portador pode resultar numa revolta intestina ....

O que o Cônsul quis dizer foi... Vai dar merda... .

Dest’arte teremos que ocupar Cartago e, é evidente que ,se houver reação por parte da plebe ignara, as medidas poderão chegar a repressão armada, com as conseqüências que se podem imaginar..

E concluiu ...

Mas Roma, ciosa dos seus intereses e agradecida pela louvável compreensão dos dignos representantes, e , como uma espécie de “ressarcimento de preterição “, no afã de protegê-los contra manifestações de barbárie, quer permitir que os nobres senhores, seus familiares e escravos possam, com a proteção de nossas falanges, se estabelecer em qualquer lugar que lhes pareça seguro, absolutamente seguro, desde que seja no deserto e que esteja distante , no mínimo uns quatrocentos quilômetros da orla marítima.

Aí então, e só aí.... os nobres senhores de Cartago perceberam a dura perspectiva e tentaram esboçar , aqui e ali , alguma reação...., mas já era muito tarde...,pois o MST não estava...... ainda..... estruturado para "defender" e as FFAA cartaginesas.. profundamente desalentadas faziam bicos lá na Assíria.

Cartago foi feita prisioneira, incendiada com todos os seus habitantes e desapareceu da história.

“ Cette aventure, mon ami , bien qu’un peu anciene, contient cepandant d’asses modernes enseigementes “

Aecio Kauffmann para o Grupo Farroupilha.




Naldo, por que a poesia?

Naldo Velho     


Porque a poesia humaniza a nossa trajetória, aumentando nossa percepção, depurando nossa sensibilidade e desenvolvendo a nossa capacidade de reflexão. E são estas coisas que nos possibilitam vivenciar infinitos matizes para uma mesma cor e nos permite saborear estas nuances.

A poesia abre para o ser humano a existência em toda a sua amplitude e o faz capaz de viajar através do imaginário das coisas que ainda não existem, fazendo com que seja possível trazê-las a realidade. A poesia transforma as pessoas, levando-as a evolução.

E é através da poesia que aprendemos a perceber o mundo pela ótica do coletivo, fazendo com que os nossos pensamentos consigam viajar livres do aprisionamento dos nossos limitados umbigos, fazendo-os promíscuos de muitos umbigos, tornando-nos mais receptivos ao diferente: brancos, negros, amarelos, índios, mulatos, mestiços de todas as espécies; homens e mulheres de qualquer opção sexual que possa existir, e não importa o credo, ou a convicção política; gordos, magros, baixos, altos, qualquer que seja a forma que o ser humano possa se apresentar, na realidade: passageiros de um mesmo barco, com defeitos e qualidades, com virtudes e fraquezas, seres semelhantes em suas infinitas possibilidades.

Se a poesia no mundo moderno fosse mais fomentada, e o meu sonho é que tal coisa aconteça a partir dos primeiros passos das pessoas, passando por todos os níveis de educação, sejam eles formais ou não; o nosso convívio seria fundamentado na compreensão e por conseqüência, bem mais fraterno, o que certamente diminuiria sensivelmente a discriminação, o constrangimento imposto ao diferente e a insensibilidade à injustiça social que hoje existe.

Por isto a poesia! Porque a cada poema eu me reinvento, eu me aprimoro, eu me transformo numa pessoa melhor, aumentando a minha capacidade de compreender.


ESPÍRITO POR UM DAIMON

Alceu Natali      


O espírito cábula que não se manifesta nem a cada lua azul.

Joga só com o nome e pelo nome não atende quando invocado no reduto do seu suplicante ou em estância forânea.

Tem ojeriza draculiana da luz do dia que desce com o fogo do sol e derrete o orvalho da terra

que não se debela com a água da chuva e só bruxuleia com o sopro do ar.

O espírito psicóide que vem do nada e vem do azul.

Sintoniza um sincrônico e, sem ser chamado, a ele se reapresenta para onde quer que seu refúgio tenha se mudado.

Colhe fôlego do ar e nele se camufla quando desce à terra,

esgueirando-se pela água que não molha e pelo fogo que não queima.

O espírito desarmado que não traz inimigo e também não põe azul sobre azul.

Fala com os olhos e pela mente se expressa em sonho, mas adormece os sentidos na vigília.

Renova suas feições da terra e confunde como fogo amigo.

Testemunha a água de lágrimas assustadas e o ar gentilmente abanado pelas preces murmuradas.

O espírito anacrônico que não deixa seu nome entrar num livro azul e o abandona numa lápide.

Zela pelos que ficaram e dele não se sabe o que se espera, mas a ele mais se pede do que se tem para dar.

Materializa-se como vapor de água que não pode ser bebida pela terra.

Desaparece como o fogo da vela que se extingue com o aroma de incenso que esteriliza o ar.