terça-feira, 17 de outubro de 2017

Hoje é o dia do amigo,
por alguém foi inventado,
ele quis todos consigo,
não deixou ninguém de lado.
-
josé marins


No túmulo


Hoje vim para enterrar
tantos anos, dúvidas
tristezas a me sufocar.
Mas hoje tudo, tudo aqui ficará
neste túmulo, que foi difícil encarar.
O céu nublado, o vento frio, parecem
esfriar minhas emoções,
Minha alma angustiada perambula
por entre questões.
Minha alma machucada é um borrão
na imensidão.
Sou um nada sem seu amor no coração.

As cortinas da vida para ti findaram
e para mim, sem piedade, se fecharam.
Perdi o meu chão,
Foram dez anos de ilusão.
Amor sem garras, abriu os braços,
deixou-me ir.
Me deu abrigo, construiu laços
para tão logo partir.

Hoje, vim para lhe enterrar
tantos anos, dúvidas,
tristezas a me sufocar.
Mas hoje tudo, tudo aqui ficará,
neste túmulo que foi dificil encarar.


 Lorença Jaqueline           

Os ramos das árvores


Agitam-se no vento que os abraça,
No seu voo invisível;
Gaivotas esvoaçam,
Na busca do seu mar;
Crianças que brincam, em algazarra,
Skates deslizam em acrobacias,
Em lutas enfrentadas com as rampas
De madeira rasgada pelos atritos;
Gemer de rodas ao castigo infligido;
Aves que chilreiam,
Nas árvores ansiosas por sossego,
Que o vento tarda em lhes conceder;
E os skaters correm vertiginosamente,
Cruzando-se com as trotinetas,
Em perigosas e arrojadas manobras;
É uma tarde radical no parque camarário,
Quedas desamparadas pelas atitudes
De valente exibição,
Que terminam em mazelas
E dores disfarçadas;
É a juventude na sua pujança.

José Carlos Moutinho


Casamento


À porta da igreja
o mendigo da rua
o casal de monstros
seu sorriso salvo

Com reflexo os vidros
realçam o céu
onde cruza avião
rumo à capital

Próxima dali
moral sem dentes
chega ao orgasmo
cabalisticamente

O mendigo pára
de olhar outros
que se dão conta
não ser meio-dia


Sentado no parque, observo…


Ari Marinho Bueno         

INEXTRINCÁVEL

Projetarei mentes avançadas
Futurosas.
Precoces cérebros dementes.
Vindouras eras desejadas
Harmoniosas.
Inexistirão pensamentos incoerentes.

Anularei sádicas fêmeas indignas
Não se tornarão primíparas malignas.

Injeto conceitos
Na inobservância de preceitos.
Despido de preconceitos
Encubro os defeitos
Descartando os sem efeitos.

Procurarei sequazes inteligentes
Mentes de cérebros frenopatas
Insânias modernas e dormentes
E assim, reabilitarei os doentes.

Seremos seres perenes e insólitos
Profanaremos prófugos serenos e usuais.

Inventaremos no espaço sem tempo
Um diminuto tal sentimento,...
... Corrompido dos tempos.
Astronauta, afrontando o firmamento.

A gravidez dessa hera
Reforma-nos em fera
Daí toda amizade zera
Será o que tua ira gera.
Vagamos,... Numa vadia era.

Imbele inumano execrável
Pulsará na essência
De teu tormento.
E nessa frágua forjará
Teu caráter diabento.

Nascerá um neto do feto, o pré-feto
Sadomasoquista abrindo barreiras
Transformista derrubando fronteiras.
Desinfeto o são infectos, vindo do reto.

Um dia, no dia, o dia acordará sem alvorecer
À noite, um dia, serão dias de noites a convalescer.

E desse nada em diante
O que há de humano
Rebrotará cambaleante.

Perdurará,...
Porem com o tempo
Novamente...
Tornaremos-nos, ufano.

E de implante a re-implante
A experiência copulante
Tornar-se-á estressante.

Revolverá...
Na terra o tempo.
Estupidamente
Morrerá desumano.

Na fumada da noite o vil lia
E bebia a maconha e a coca tragada.
Na baforada do açoite de mil guia
Erguia-me na cachaça consagrada.

Num mar de rios de fogo
Estrelará, muito até tonteante... , e
... Surgirás da fuligem do lodo.
E nesse hall, o amor virá humanante.

De um chip adiante.

Francisco De Arruda Bezerra      



Sol repentino -
Vai embora carrancudo

o vendedor de guarda-chuva

Alvaro Posselt  

Diário de um pobre

  
06 horas.
Eu acordo assustado,
o cachorro late pra todo lado.
Levanto, estou faminto,
a geladeira é meu caminho,
Mas que pena está vazia.

Às seis e trinta tô no banho,
o sabão é meu perfume.
Água fria e eu canto Bartô Galeno,
e me olho no espelho,
tá faltando dente no sorriso.

Sete horas eu ligo o carro
que está meio quebrado.
A bateria não funciona
e eu chamo a patroa
pra me ajudar a empurrar.

Ele pega meio no tranco,
já tô na fila do banco.
Cansado, esperando.
Pois o cheque voltou
sem eu mandar.

11 horas chego no trabalho,
o chefe olha meio de lado,
não se conforma com meu atraso
e diz que vai no salário descontar.

Tô na hora do almoço,
que é pedaço de pescoço,
engasgado e quase rouco,
mas preciso acostumar.

17 horas.
É fim de expediente.
Entro no carro muito quente,
ele quebra de repente
e ninguém quer empurrar.

Aproveito a ladeira,
ligo o carro sem besteira,
vou com o brega na cabeça
e o guarda quer me multar.

20 horas.
Chego em casa acabado,
a mulher mostra o sapato
que está descosturado,
pois tá velho de lascar.

O menino tá chorando,
pois o leite tá acabando,
e eu pergunto: até quando?
Será que eu vou suportar?

Ligo a televisão,
pra assistir o jornalzão
e quem sabe a solução
podem me apresentar.

A manchete é terrivel,
subiu o gás e o combustível
e o leite do menino
que continua a esperniar.

22 horas.
Vou pra cama pra dormir,
e a mulher diz: peraí!
tem coisa boa para ti
que preciso te contar.

Ela me fala de repente:
Mamãe vem morar com a gente!
Assustado eu pergunto: É pra sempre?
Você quer me assassinar.

E o dia tá terminando,
e meu diário vou parando,
pois a tinta da caneta tá acabando,
e eu preciso descansar.


(Nelson Rodrigues de Barros)
pode cortar como faca
ou ferir como espinho
que seja proibido
aos olhos d quem seja
eu quero tudo que sangra
nem que seja em angra
como energia nuclear
ou passaporte pro futuro
não quero porto seguro
quero morrer no mar

arturgomes

CIDADE VAZIA


Na sombria cidadela da cidade
Os sortilégios ecoam dos pavimentos
Trocam-se favores com numerário alheio
Votam leis, sotopondo a população
Que malicia
Que milícia
Nem aparentam rubídez.

Uma arena, romana, erguerá na cidade
Aos leões sortearemos os de todos os pavimentos
Aprenderam a não surrupiar o alheio
Reputaremos nova população
Sem malicia
Sem milícia
Prostraremos sua rubídez.

De que adianta bela cidadela construir
Habita-la com comandantes rufiões.
Laborar cinco meses do ano
Para seus rotundos bolsos saciar.
O situacionismo há de perecer.

Cidades-modelo irão construir
Juizes trancafiaram rufiões
Pagaremos o justo, todos os meses do ano
Ilícitos ganhos não irão mais te saciar.
De um modo ou de outro, vão perecer.

Era uma vez,..., cidade vazia
Um dia,... , verdadeiras federações.

Francisco De Arruda Bezerra      



O Telefone

(R.B. Côvo)

- Alô! Alô!
Pausa. Suspiro. Nervoso miudinho.
- Alô! Alô!
Repetição. Esse “alô” uma e outra vez repetido, toda a repetição é uma perda de tempo, angustiante, incômoda, desnecessária. Radical, eu? Não! Um amor que se repete, por exemplo, é um amor desprovido de magia. E numa dama, a de todas a mais bela, o segundo gesto não resulta tão gracioso quanto o primeiro. O beijo, então, devo pô-lo a salvo de tais considerações. Todo mundo lembra o primeiro beijo, já o segundo quem o lembra?
Cinco dias. Em cinco dias as coisas se repetem. Acordo às sete da manhã, tomo um duche, escovo os dentes, visto aquela fardinha ridícula à escuteiro, corro para a parada, pego o ônibus até ao trabalho...
Começou segunda-feira, vinte de junho, cinco horas da manhã tocou o telefone. Levantei-me rápido, assustado, “pode ser alguma coisa com meus pais, eles são velhos, doentes”, atendo, “alô, alô”, e nada, ninguém fala, silêncio absoluto, respiração leve. Insisto mais um pouco até alguém desligar do outro lado.
Hoje é sexta. São dez da manhã. Não fui trabalhar. Terça, quarta, quinta, sexta, o telefone teimou em acordar-me. Brincadeira chata, de mau gosto, recuso-me a acreditar que algures no mundo existe alguém tão imbecil que se lembre de me aborrecer todos os dias às cinco da manhã. E, por que eu? Não poderia ter sido outro o escolhido? Eu nunca quis, Deus sabe, ser o escolhido, o eleito. Se me puderem deixar sozinho comigo mesmo sou feliz.
Trim! Triiim!

Hesito. Ainda fico meio na dúvida entre levantar-me ou não levantar. Nunca ninguém me liga e estou tão bem enrolado nos meus cobertores. No máximo será minha chefe reclamando da minha demora. Chefe é como telefone, chato, repetitivo, fastidioso. E hoje é um dia diferente, daqueles que poucas ou nenhumas vezes se repetem. Hoje não vou. Para todos os efeitos estou doente.
“O poeta cria, fora do mundo que existe, o que deveria existir. Eu tenho direito a querer ver uma flor que anda ou um rebanho de ovelhas atravessando o arco-íris, e quem quiser me negar esse direito ou limitar o campo de minhas visões deve ser considerado um simples inepto.” (Vicente Huidobro).

"Um 'angelus silesius' mira o olho-d'água"


Por entre avenca e feto e taquarapoca
No seio-limo-musgo da mata ciliar
Corre arregalada a crua matéria-prima essencial
O vero olho da terra é o cristal d’água
E não há no reino mineral
Nenhum poder de pedra que estanque
O jorro das gotinhas
Rasgando as entranhas da terra
Sedentas por ver o sol
Sedentas por ver o sol
Secas por vê-lo
Dourar o campo, o alecrim e a mata
Dourar o vale, a garganta e a serra.

Córnea, cristalino.
Pupila, íris, pálpebra, retina.

Ai, se este olho-d’água
Filtrasse a sentina, a latrina
Do mundo e da minha alma
E o nojo e a náusea e o lodo e a lama lavasse
E o "Eco" pagão aos meus ouvidos recordasse
Que o olho por onde eu vejo Deus
É o mesmo olho por onde "Ele" me vê.


De Waly Salomão

OS SEMEADORES


(Século XVI)

Vós os que hoje colheis, por esses campos largos,
O doce fruto e a flor,
Acaso esquecereis os ásperos e amargos
Tempos de semeador?

Rude era o chão; agreste e longo aquele dia;
Contudo, esses heróis
Souberam resistir na afanosa porfia
Aos temporais e aos sóis.

Poucos; mas a vontade os poucos multiplica,
E a fé, e as orações
Fizeram transformar a terra pobre em rica
E os centos em milhões.

Nem somente o labor, mas o perigo, a fome,
O frio, a descalcez,
O morrer cada dia uma morte sem nome,
O morrê-la, talvez,

Entre bárbaras mãos, como se fora crime,
Como se fora réu
Quem lhe ensinara aquela ação pura e sublime
De as levantar ao céu!

Ó Paulos do sertão! Que dia e que batalha!
Venceste-la; e podeis
Entre as dobras dormir da secular mortalha;
Vivereis, vivereis!




 De Machado de Assis

O filósofo


Quando penso nos tempos de outrora
Meu olhar se perde em desventura
Triste vejo o vago desta hora
Sou um lago sereno de amargura.

Minha boca não sabe de outro beijo
Sem desejo ativo morto - vivo
Sou um vulto pálido doutro tempo
Que saiu de algum livro asombrativo

E se choro as lágrimas são de plástico
Quando batem no chão ninguem escuta
Sou filósofo, não sei de metafísica
Alma tísica à espera da cicuta.


Do quase possível.

A ideia de um mundo quase possível
onde as flores falassem,
e que as mulheres fossem só perfume.

No quase possível os homens não falariam de paz,
não! Apenas viveriam em paz... Sem ditador
sem guerra ou discidentes.

A praça seria dos namorados
e não dos meninos abandonados.

Em um mundo quase possível
poetas não morreriam,
se encantariam...


 Evan Do Carmo 

Grafito


neste lugar solitário
o homem toda manhã
tem o porte estatuário
de um pensador de rodin

neste lugar solitário
extravassa sem sursis
como num confessionário
o mais íntimo de si

neste lugar solitário
arúspice desentranha
o aflito vocabulário
de suas próprias entranhas

neste lugar solitário
faz a conta mais doída:
em lançamentos diários
a soma de sua vida


José Paulo Paes

INQUISIÇÃO


Aos doentes, a doença,
a condenação silenciosa
dos olhares – e uma marca
a ser carregada para sempre.

Aos normais, o álibi,
a absolvição antecipada,
a isenção impiedosa.
A vida no conforto da sombra
dos que trazem a ferida aberta
e uma dor que deve ser sentida
em segredo.

O dedo que aponta a loucura
de forma certeira e impiedosa
é uma arma cruel a defender
a normalidade do seu dono.

Enquanto existirem loucos no mundo
os covardes poderão respirar aliviados.


 Orlando Bona Filho         

O sal da língua



Escuta, escuta: tenho ainda

uma coisa a dizer.

Não é importante, eu sei, não vai

salvar o mundo, não mudará

a vida de ninguém - mas quem

é hoje capaz de salvar o mundo

ou apenas mudar o sentido

da vida de alguém?

Escuta-me, não te demoro.

É coisa pouca, como a chuvinha

que vem vindo devagar.

São três, quatro palavras, pouco

mais. Palavras que te quero confiar,

para que não se extinga o seu lume,

o seu lume breve.

Palavras que muito amei,

que talvez ame ainda.

Elas são a casa, o sal da língua.

Eugénio de Andrade



segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Ensaio sobre uma peça inacabada


"...Acabo de chegar de um lugar indeterminado; não o sei localizar; fica algures na minha memória, já um pouco esbatida pelo tempo; gastei muito do meu tempo a lembrar o que não deveria ter sido recordado. Mas o arrependimento não trás nada de novo, apenas revolve o velho e não deixámos de ser o que somos, apenas almas errantes neste mundo de contrastes e de negações. Somos apenas e tão somente os "dejectos" dum mundo imperfeito. Não nos foi dada a possibilidade de esboçar a nossa própria vida e assim temos de nos contentar com os constantes ensaios que fazem de nós, indeterminando a solução final.Perdemo-nos na amálgama do tempo e da insanidade.Já não somos quem queremos ser.Somos apenas o que nos "dão" para ser.Permitem-nos viver de memórias e de factos que de novo se transformam em lembranças.Mas, lembrar para quê? Para sofrer? Para verificar que afinal de contas de nada serviu o esboço que de mim fizeram em constantes ensaios que a nada me levaram? Apenas à negação, só me levaram à negação.Não sei quem sou. Talvez nem queira saber: Não foi para isso que aqui vim; vim a este mundo para ser feliz, disseram-me um dia; e eu, parvo, acreditei.Vivi correndo nesse sentido; esbocei sorrisos e ensaiei risadas. Tropecei, caí mas de novo me levantava. O horizonte estava sempre perto e me bastava estender a mão; a ajuda nunca me era negada; acreditei que o esboço que de mim fizeram em alguma coisa de bom se haveria de tornar, um dia, quando não sabia, mas haveria de me realizar.Engano. Puro engano. Quando dei por mim estava caído, só, perdido, fendido em mil pedaços de mim, dorido de dores que não imaginava existirem.Mesmo assim olhava em frente na expectativa de que o esboço que fizeram de mim, depois de tantos e tantos ensaios, me permitissem olhar e sorrir de novo. Fiz isso muitas vezes. E havia sempre uma mão, ali, expectante, sorrindo para mim (engano). Para que foi que me sorriram? Porque me enganaram? Porque me disseram que sim? Porque razão me arrastei até aqui?Porquê?Que ganhei eu?Derrota após derrota?Claro que ganhei muitas batalhas, claro que sorri muitas vezes, claro que dei gritos de espanto e de prazer, claro que sim, mas, para quê? Para chegar a este fim?Para verificar que tudo o que vivi foi uma dramatização de mais uma história igual a tantas outras histórias de amor e sofrimento?Foi para isso?Foi para isso que me trouxeram até aqui?Foi para verificar que "isso" não existe? E, o que é o "isso"? O "isso" é um sarcástico riso dum engano simples mas preciso; dizem-nos: Vai e sê feliz, foi para isso que aqui vieste. E eu vim, olhando, sorrindo, esboçando e ensaiando o que poderia vir a ser e a ter: um amor, o amor!Amei e fui amado.Quis ficar pela simples razão de ter gostado. Então amei e fui novamente amado e numa infindável sequência de vidas eu percebi que estava a ser traido pelo esboço que fizeram de mim; o ensaio não tinha tido ensaio-geral; o pano subira para a representação da vida e eu não sabia o papel.Destruiram-me, logo ali, logo à partida.Negaram-me a possibilidade de estudar melhor as deixas e as palavras, os tregeitos e a forma de colocar o corpo no palco da vida; o esboço havia sido mal concebido; o ensaio não havia servido de nada.

Não havia ponto.

Não havia nada. No entanto, pensei que havia tudo e de nada me servi a não ser da minha inadaptação ao papel. Fui um mau actor

As lágrimas caiem-me agora e ninguém as vê; só eu as sinto aqui ao meu redor; os olhos se me toldam numa profunda mágoa e a tristeza me invade.

Quis amar e ser amado.

E, sou-o!

Para quê?

Onde é que ele está? Aqui, ao meu lado? Ali, depois daquela esquina? Depois, um pouco mais para além do horizonte? Ou a seguir àquele arco-íris colorido de vida mas que nada mais me traz para além dessas mesmas cores.

Isto não é um grito.

É para dizer que não me contratem mais; não há esboço e ensaio que cheguem para me reconstruirem de novo; a "argamassa" foi totalmente utilizada quando havia um sorriso, quando havia riso e olhos brilhantes.

Já não sei o papel de cor e já não consigo ler.

No entanto, o amor não precisa de esboços nem de ensaios; no entanto, o amor não precisa de saber o papel, nem de ponto, nem de palco; o amor precisa de actor, de alguém que grite que está vivo, que ainda não perdeu a única "coisa" que tem para dar e isso está ainda dentro do meu coração, ainda pulsa e me diz que é, que existe, que sente, que vibra.
Grito, no meio de uma lágrima escorrendo sobre um sorriso, que por muitos esboços e ensaios, eu ainda o sinto e que esse amor (latente, vivo) não acabará nunca, morrerá comigo, levá-lo-ei para onde eu for, será presa de mim mas não estará preso em mim, será livre de ser o que tiver de ser, será o advir..."  
      

Joaquim Nogueira         

Ensaio sobre a solidão


“…depressa me canso de mim… olho à minha volta e só vejo recordações… uma terna claridade invade o meu quarto e me rodeia de mansinho… já reparei várias vezes: vem sempre acompanhada do silêncio!… nunca soube o porquê de tal evento… é uma luz difusa, lenta, como que surgindo a medo e com ela, um opaco silêncio… algo que nada traz a não ser paz… mas trazê-la já é bom… e é nesses momentos que me sinto só… e sabem porquê?… porque não tenho com quem partilhar esse momento!… algo que sempre desejei fazer um dia na minha vida: partilhar a minha solidão… dizer a alguém: “…Vês?… Estás a ouvir?… A minha solidão está aqui, é isto que vive aqui comigo… Entendes?…”… mas nunca consegui e nunca o consegui porque nos momentos em que a solidão me visita eu nunca estou acompanhado… engano, estar acompanhado estou mas apenas de mim mesmo e dessa luz e desse silêncio… já somos três… estendo-me então no leito dessa luz e deixo-me levar pelo barulho do silêncio que me invade… nunca é tarde para experimentar novas sensações, só que esta é já demasiadamente minha conhecida e então apenas nos olhamos e nos aceitamos mutuamente… nada mais fazemos senão partilhar aquele momento, uma partilha a três numa solidão solitária de um só… estendido nela e com o silêncio deitado a meu lado, olhamos o tecto que lentamente se separa de nós em tons de cinzentos cada vez mais escuros… passo os braços pelo silêncio e aperto-o de encontro ao meu peito… sinto o seu respirar lento e compassado… é um som simpático, eu sei, mas ao mesmo tempo ousado na medida em que invade o som do bater do meu coração… e o silêncio deixa de ser silêncio para ser um baque surdo ritmado aqui, ao meu lado, deitado… no entanto, continuo abraçado a ele e ele sente-se bem porque acarinhado… é um abraço puro mas forte… ingénuo mas apaixonado… é apenas um abraço de silêncio compartilhado num leito de claridade a escurecer em lentos tons que tem o anoitecer… porém, já quando o tecto se separa de nós e nos abandona entregues que ficámos à luz das trevas que entretanto nos envolvem, o silêncio se aperta contra mim e me possui… penetra-me fundo e a respiração torna-se ofegante, sufocante… o que até então era um prazer compartilhado passa a ser dor e algo que corrompe… penetra-me cada vez mais fundo e a dor aumenta… o bater e o som do meu coração ultrapassa o silêncio que entretanto se esvai num orgasmo de sons delirantes de espasmos gigantes que se avolumam dentro de mim… o tecto já não existe, a obscuridade ainda persiste com mais intensidade… é um estar sem vida, sem morte e sem idade… apenas habita em mim numa eterna cumplicidade… respiro o espaço que me rodeia… e a escuridão cai sobre tudo e me envolve como uma teia… já tenho mais uma companhia… o doce sono vem de mansinho amparar meu corpo e cobre-o com carinho… adormeço lento, extenuado de tanta amargura, numa vã procura do próximo amanhecer que de novo me vai trazer o fim de tarde, neste terno ciclo de amor e ódio em que espero pela eternidade…”
Joaquim Nogueira



Ensaio sobre a loucura



Primeira carta:

“…acordei por volta das 3 e 15 da manhã… sim, era isso… olhei para o relógio da mesinha de cabeceira e marcava 3 e 15… é um relógio daqueles de ponteiros luminosos… Olhei para o tecto sem saber porque razão acordara, mas lembro-me que talvez tenha ouvido a porta de um carro, lá fora, a bater ao fechar-se… olhei de seguida para os buraquinhos das frinchas da persiana da janela e divisei a luz da noite… a rua tem candeeiros e vê-se essa luz ainda que difusa… Senti o corpo morno e passei a minha mão pelos meus seios acariciando os bicos do peito… Deixei a minha mão descer pela barriga até sentir o meu sexo e desejei ter-te ali comigo… a minha mão acariciou os pelos púbicos e lentamente introduzi um dedo na minha vagina… Deixei-me estar assim durante uns momentos e lembrei-me de ti… lembrei-me de todos os momentos que te tive e que a meu lado te senti… Sabes, quando me abraçavas e me sentia pequenina, dessa forma mágica que tens de me abraçar… quando me beijavas e me sentia desfalecer ao sentir a humidade dos teus lábios… sabes, não sabes?… Sei que sim… Lembras-te daquele dia em que nos encontramos pela primeira vez?… O dia em que nos olhamos e os nossos corações bateram?… Aquele dia mágico que marcou o resto dos outros nossos dias?… Acordei sem saber por razão acordava mas penso que a saudade marca o sonho e, se calhar, estaria a sonhar contigo… Lembras-te daquele dia em que estavas sentado no sofá da nossa sala e me ajoelhei a teus pés?… Lembras-te de termos feito amor na mesa da cozinha?… Lembras-te daquelas férias que tivemos na montanha e lembras-te de certeza de termos feito amor deitados naquele chão branco de neve… Lembras-te de, no fim, teres lavado o teu sexo com a fria neve que estava ao nosso lado?… Lembras-te como ele ficou pequenino por causa do frio?… Lembras-te como nos rimos às gargalhadas?… E daquele dia que fizemos amor no carro?… A meio deste um grito porque te aleijaste numa perna no travão de mão?… Sim, porque não te haverias de lembrar, se eu me lembro tão bem… e daquela outra vez na praia, escondidos numa duna, quando eu fiquei cheia de areia… Acordei às 3 e 15 e já são 3 e 40!… 25 Minutos a pensar nisto… sinto-te em mim, meu amor e não estás aqui presente… mas sinto-te… sei que sou eu que me acaricio mas é como se fosses tu… sinto como se fossem as tuas mãos, o teu corpo quente, o teu hálito a maçã que costumavas comer a toda a hora… eras doido por maçãs… nunca soube porquê… nunca considerei isso importante mas era importante para ti, não era?… Os teus beijos quentes e húmidos, num saltitar constante entre os meus mamilos e a minha boca… Como beijavas tão bem… mas sei que mesmo que beijasses mal, para mim era sempre bom, doce, quente, por vezes abrasador… como eu costumava dizer que acendias em mim o fogo da lareira sempre acesa… eu sei que fui sempre “louca” por ti mas tu sempre gostaste de mim assim… eu sei que sim… eu sentia que tu gostavas de mim assim… tu também eras louco, sabias?… Sim, a tua loucura me incendiava e quando nos rebolávamos na cama parecia que tudo se partia e a cama chiava… como nós nos riamos disso… coisas giras e loucas, não eram?… Meu bem, como me lembro de ti assim?… Porque acordei eu a pensar em ti?… Porque é que ainda penso em ti ou porque é que estou sempre a pensar em ti?… Sabes que não há um único momento da minha vida que não pense em ti?… Eu sei, eu sei que dizem que estou louca… mas eles não sabem que já não estou louca, já estive, sim já estive louca por ti… agora já não estou… estou feliz, triste mas feliz e tu sabes porquê, não sabes?… Sabes, eu sei que sabes… Já são 4 da manhã… Acho que vou dormir um pouco… Penso que vou sonhar contigo e depois… depois voltar a acordar para pensar mais uma vez nos nossos dias felizes, nos dias que passamos juntos, naqueles dias em que a loucura era permitida e nada mais interessava… até ao dia em que te foste… Nunca soube porquê, porque me deixaste, porque não me quiseste mais… porquê, meu amor?… O sono está a regressar… sabes, deram-me mais uma injecção e vou ter de dormir, sim?… Eu vou dormir mais um pouco, meu amor… mais um pouco… mais um pouco… como ainda te amo… sim, serei sempre a tua Maria, meu amor… tua para sempre… para sempre…”

a tua Maria

Segunda carta:

“…continuo a acordar todas as noites… não há forma de o evitar… a tua ausência incendeia-me os sentidos… a tua falta provoca-me esta ânsia de te sentir presente… sofro neste sofrimento sofrido de dor e solidão… já não sei quem sou… também não interessa… lembras-te da última carta que te escrevi… sim, daquela em que acordei às 3 e 15 da manhã?… Essa…sim, quando senti a tua falta e me acariciei como se fosses tu que o estivesses a fazer… oh meu amor, como sinto a tua falta!… Não, não sei que horas são… até o relógio me tiraram deste sepulcro… olho pelas frinchas da janela e vejo luar… não sei a quantos estamos… mas isso tem importância?… Que valor terá o dia em que me encontro se não te encontro num só momento?… Desespero neste tormento de sentir a tua falta e não te sentir a presença… Como poderia sentir se tudo o que sinto é dor?… Todos os nossos momentos me passam pela memória e esta lembrança chora, chora como se fosse ela a minha própria alma e eu não existisse… Aqui onde estou não me lembro do que sou, só me lembro de ti e de todos os momentos em que estive contigo e contigo vivi… Sim, agora não vivo, apenas recordo… Dizem que recordar é viver… oh meu amor como pode ser viver se cada vez que me lembro, sinto que estou a morrer… as tuas mãos estão aqui no meu peito apertando-me os seios como tu tanto gostavas de fazer… a tua boca na minha boca e a humidade da tua língua na minha língua… o doce beijo nos meus mamilos e como as tuas mãos me penetravam com doçura e força ao mesmo tempo… oh meu bem, como te amo tanto… como te quero tanto… oh meu bem que lágrimas tão amargas estas que broto a todo o momento… olha, devem ser 4 da manhã… vem aí a enfermeira com a injecção do costume… continuam a dizer que esta minha loucura não tem cura… eu sei que não tem, como poderia ter?… Como me posso curar da tua ausência?… Como posso viver nesta minha morte?… Não sei meu amor, não sei… A enfermeira me aconchegou os cobertores… sabes, está frio e sinto frio dentro de mim… já não consigo falar… apenas olho no vazio… neste vazio que me preenche… Mas não preciso de mais nada, basta-me a lembrança dos momentos que vivemos… basta-me esta dor que vive comigo… bastam-me estas lágrimas… o meu pão de cada dia… o meu alimento neste vazio… sinto os olhos pesados… sei que vou dormir mais um pouco mas estou feliz pois vou dormir contigo nos meus braços, nestes braços que não te sentindo te lembram, te tocam, te apertam contra mim… lembras-te de quando adormecíamos assim?… Como era bom acordar a meio da noite com os braços dormentes e sentir o calor do teu corpo abrasar este meu ser que de tanto te querer te perdeu… oh meu amor, como te amo… como sinto a tua ausência… vou dormir… até mais logo… lembra-te de mim como me lembro de ti… um resto de noite feliz, meu amor…”

a tua Maria

Última carta:

“…já é habitual acordar a meio da noite… é sempre naqueles intervalos entre o efeito das drogas que me dão… aproveitei sempre esses momentos para te escrever, meu amor… porém, estou convencida que esta será a minha última carta e, sinceramente, não sei o que te quero dizer… meu amado, meu bem, meu doce, meu tudo, meu ser, minha alma, minha única razão de existir: não sei sequer se irás ler estas minhas palavras… como é hábito e tu sabes, devem ser 4 da manhã… está na hora de mais uma dose e a enfermeira deve estar a chegar… restam-me poucos minutos e estas serão as últimas que vou poder te escrever… as outras cartas que te enviei, onde recordava tudo o que de belo e bom tivemos durante os tempos em que estivemos juntos, também não sei se foram parar às tuas doces mãos, (tão doces de todas as carícias que me levaram ao êxtase e ao delírio, tão suaves que eram, meu amor, tão doces que as sentia em mim como se minhas fossem, como se me pertencessem desde sempre)… não sei se te disseram como estou, não sei se sabes no que me tornei… mas, há cerca de meia dúzia de dias (como se contam os dias aqui?… não me perguntes porque não te sei responder…) ouvi-os dizer que já não havia nada a fazer e que a única forma era o isolamento total e final… vão, pois, privar-me da única coisa que tinha vinda do exterior… a luz da lua nas noites frias porque sem ti e da luz do sol gelado porque não a teu lado… tiram-me também o bater das gotas da chuva que me faziam contar os segundos em que olhava o tecto e recordava tudo o que fomos… vão, portanto, enviar-me para longe de mim mesma, encharcar-me de drogas e mais drogas para que eu não possa reagir e gritar como tenho gritado estes últimos anos… gritado por ti, meu amor, gritado pela tua ausência, pelo amor que tivemos, por tudo de bom que passámos, por tudo o que está gravado na minha alma, na minha pele, no meu ser, na minha totalidade… como dizer-lhes que não estou louca, como dizer-lhes que o que sou é apenas o resultado do que fomos… como dizer-lhes que nada tenho porque apenas e só tu me faltas e que nada mais desejo que não seja o que um dia fomos… queria, antes de ir, antes (eu sei) de morrer de falta de ti, olhar-te apenas mais uma vez; fixar teus olhos e sorrir no teu sorriso… tocar teus lábios e tornar-me num beijo… sentir tuas mãos nos meus seios e ser eu mesma esse toque… sentir teu sexo me penetrar e ser eu mesma a penetração… meu amor, apenas uma última vez e eu ficaria curada… mas tenho consciência (sabes aquela consciência que nos resta no intervalo curto entre as injecções) de que tal não vai acontecer e sei que o meu túmulo estará naquelas 4 paredes sem grades porque sem janelas; já tinha ouvido falar delas quando cá entrei… ouço passos; deve ser a enfermeira do turno da noite… deve ser a próxima toma de mais um calmante… o habitual, a norma, o gesto, o ritual, a morte em ensaio… sei que já não vou ter mais tempo… o tempo terminou… vou levar comigo todas as recordações que me restam porque nada mais tenho nem nada mais quero: quero apenas que não me tirem a recordação do som do teu riso, o sabor do teu toque, o brilho do teu olhar… isso eles não me conseguem tirar… é isso o que vou levar comigo… quando partir para sempre deste corpo físico que já nada sente, irás dentro da minha alma e serei sempre feliz para onde quer que eu vá, tu estarás lá… eu sei, meu amor, eu sei… me despeço para todo o sempre… deixo-te a minha paz, a paz que obtive na loucura do nosso amor, a paz que me toca ao de leve enquanto sonho contigo… nada mais resta… perdoa-me por te ter amado tanto… perdoa-me por não conseguir deixar de te amar… perdoa-me por te levar comigo no meu coração… adeus, meu amor…”

a tua Maria

JOAQUIM NOGUEIRA 


Caos



Velhos caminhos por florir,
Memórias vividas e esquecidas,
Montanhas surdas aos lamentos,
Gritos estrangulados, sem som,
Peitos doridos pelas mágoas,
Amores controversos e belicosos,
Tempestades de desalentos,
Chuvas secas pelas desilusões,
Estrelas sem brilho, escurecidas por desencantos!
Rios congelados por águas paradas da intriga,
Gente que corre, sem saber para onde;
Árvores com folhas que não se agitam ao vento,
Pensamentos que se perdem no vazio,
Vontades esmorecidas na escuridão;
Olhos que se perdem no horizonte,
Sem verem que o sol se apagou;
Esperanças desfalecidas,
Horas que morrem,
Ilusões que não nasceram,
Sonhos, que jamais serão sonhados;
Ventos que deixaram de sibilar,
Brisas, que não mais acariciam
E a lua, simplesmente desapareceu!


José Carlos Moutinho

O primeiro beijo


Íntimo do medo
(e não avesso a ele)
o rosto indecifrável sequer denuncia
a tropa de cavalaria
que lhe sacode o peito.
Enquanto as mãos,
na exposição do argumento,
tremem visivelmente,
ele permanece sereno, pousado
(gota de orvalho sobre a agulha do pinheiro)
no momento presente.
Daí o seu poder deriva:
de não querer domar a coisa viva,
mas cavalgá-la com graça
(o corpo não se opõe ao desejo).
Ele é dono do seu medo,
e o abraça.

CLAUDIA ROQUETTE-PINTO



lágrimas de dois gumes



A noite descia suavemente sobre os meus pés dormentes, de tanto caminhar em vitrinas pardas, agasalhadas pela nudez de manequins que se passeavam em suspiros de glamour.
Não conseguia deixar de pensar naqueles corpos entrelaçados uns nos outros, como se fossem heras a trepar pelas minhas pernas febris de desejo em tons verdejantes de seda pura. Tinha fome do meu corpo ou de outro corpo qualquer, que apenas me tocasse com luvas de pelica, delicadas sonatas num negro piano de cuada.
Toquei-me, e, as pautas escritas em folhas brancas deslizavam em gestos harmoniosos o romper da aurora, o prazer aumentava com a mesma fúria das mãos que saciavam o estremecer das teclas, que se rompiam em orgias de cor preta e branca.
Caí num êxtase selvagem de palmas destiladas, deitada num palco onde as cortinas se fecharam num correr purpúreo de incenso mort du petit Jasmin.
Quando acordei as árvores enroupavam o meu corpo desfolhado, estava submersa em lágrimas de dois gumes num banco de jardim.
O tempo tinha-se esquecido da madame coquet…Olhei de novo as vitrinas, não passavam de folhas de jornal amareladas, lacradas por letras crescentes…” Pour la vente”.

Conceição Bernardino


Natureza-morta

Natureza-morta
é a minha vestimenta
e o meu calçado preto

Natureza-morta
são os teus sapatos de ténis
e a tua roupa de marca

Natureza morta
é o copo de vinho
junto a uma lata
cheia de cinza e beatas
encima da tua secretária

Natureza-morta
são os bares e discotecas
superlotados às sextas
e sábados à noite

Natureza-morta
é a solidão
em que tu e eu
vivemos e não
queremos acreditar

©Maria do Rosário Loures-Popp


Nuremberga ano de 1995

ACRÓSTICO



B- albuciando o nome da divina fada,
E- ncantadora musa, da paixão sublime...
N- as asas do delírio, esse poeta exprime,
D- ezenas de monólogos à sua amada...
I - nerte e descuidada, ela nem desconfia...
T- em sono, tem fadiga...E tão feliz descansa!
A- mão do pretendente, porém não se cansa,
S- e encontra a escrever-lhe, até raiar o dia!

M- ilhares de letrinhas, num balé conexo,
A- ssumem o lugar da boca, do desejo,
D- o mimo, dos afagos, do calor, do beijo...
R- asgando um coração, amante e desconexo...
U- fanos devaneios, vários chamamentos...
G- emidos de saudade, gritos de paixão...
A- lardes sufocados pelos sentimentos,
D- ão vez ao tremular da vasta inconsequência,
A- stuta e e enebriada na introsprecção,
S- ervida no banquete da correspondência...

Nizardo Wanderley





INVENTÁRIO


O brasão está posto nas cãs da matriarca
as chaves da terra
penduradas no peso dos anos
lhe enferrujam a voz.

Sete línguas mastigam as léguas do tempo
sete reses ruminam as vozes dos mortos.

E meu filho dorme, alheio a tudo isso.
Inocente ainda e derradeiro herdeiro
apenas deseja palmilhar um sonho
nas léguas do seu chão

de berço.

Wender Montenegro   

RECIFE



Na poesia do sonhador
Recife encantos mil
Aos olhos da saudade,
Em seu berço Varonil,
A mais bela natureza,
Aos olhos da realeza
A Veneza do Brasil.

No seio da saudade,
Recife é admirada,
Em cada canto Visto,
Tua beleza é cantada
E os poetas sonhadores,
Retrata os teus sabores,
Nas cores desenhadas.

Lembranças do passado,
Ficaram na memoria,
Um Recife colonial
De lutas e Vitórias,
Um nordeste guerreiro,
Na voz do sanfoneiro
Recife conta história.

De beleza esplendida
Recife e seus coqueirais
Canta os compositores.
A terra dos carnavais,
O galo da madrugada,
Canta pra cidade amada,
Suas belezas naturais.

Cidade de belas praias,
Boa viagem artesanal
No calçadão da poesia,
Tem musica instrumental,
Tem forró, xote e baião
Encantando o coração,
Dos turistas da capital.

Cidade em crescimento
Do sertão tem imigração,
Jovens que vêm estudar
Faz crescer população.
Recife você me adotou
Aqui sou poeta cantador
Canto a ti minha canção.


bel Salviano

sábado, 14 de outubro de 2017

O dia nasce cinzento...


pela janela entreaberta do meu quarto
o vento, a brisa, e a verdade inconteste,
de que a vida é dinâmica, por vezes clara,
por vezes nem tanto,
porém nunca sombria...
Nos meus guardados, as poesias.
Nas poesias, minha vida.
Na minha vida, uma visagem colorida
da renovação dos dias.
As conversas, as razões, as linhas extremas,
não mais serão as mesmas,
pois que a visão cíclica
veste-me como um personagem
de aqui, ali, acolá...
josemir(aolongo...)


ULTIMA RATIO



espreito o indefinido como quem morre outra vez
meus olhos carregam cinzas
seguem opacos, cansados
mas avistam a última barreira

um sussurro me confessa mistérios
demônios dançam libertos
tridentes na carne que sangra fustigam meus sonhos
que teimam existir

insisto
rasgo realidades com meu arpão de delírios
penetro o infinito como um bólido
abaixo do limiar, o desejo do verme me devora entranhas
mergulho-me

caminhos a escolher e um destino marcado
resta-me seguir e contar às estrelas

até a treva, seus derradeiros reflexos
haverão de me acompanhar

(Celso Mendes)


Amazônia



Onde …onde… é que está.
Amazônia suspiro de respirar!





Onde …onde… é que está
Amazônia pulmão da humanidade.





Os homens ,as crianças por oxigênio na vida a procurar
As árvores ,quase não balançam
Vejo crianças agitadas em balões.Esperam ar puro
Por vida clamam,enquanto sobrevoam por todo espaço.
Deus estende a mão para aliviar ar pesado
despejados em atmosfera vindos de toda esfera.
Os homens não cantam.
Serras não param de cortar e o fogo faz fumaça chamuscar.





Num momento ví alguns pássaros
Sobrevoavam entre nuvens, vôos em círculo.
Não queria acreditar.
Seus ninhos não estavam nas árvores.
Os macacos já não faziam suas acrobacias.
Não acredito…
Onde estão as onças para tela enfeitar
Choro se faz pelo Universo.
enquanto poeta chora em forma de versos.





Onde …onde… é que está.
Amazônia suspiro de respirar!





Onde …onde… é que está
Amazônia pulmão da humanidade.







Queria… muitas de novo plantar.Uma nova tela deslumbrante
ressurgirá …para nosso Planeta renascer.
Venha…venha ajudar.Nova semente e um pouco de amor
é só o se que precisa. Venha , os peixes querem borbulhar
por planície de maior oceano de água doce.
Doces momentos irá se configurar ,flores abrirão.
Nosso corações entoarão o maior hino da Terra
e os sinos bem alto pelo mundo tocarão.





Onde …onde… é que está.
Amazônia suspiro de respirar!





Onde …onde… é que está
Amazônia pulmão da humanidade.








regina ferreirinha 02-06-2011

Catacumba de sonhos


Elevo, lã
Ali epidermes chãs
Houve

Macia a estrebaria
Filosofia que tez
Espaço e forma sul

Nuances de vidas
Insurgem telas do
Colorido totemico

Abstraio tua lei

Pois teus idos
E vividos ou não

Não me locupletam

Meus frutos sempre
Plantas no chão/vácuo

Da colorida solidão

Uma nota, brota e
Esgota o ritual

Tal qual teu zelo
De si
Metaforizado
Em partidos políticos
Fractais

Componho nossa marcha
Em neve

Rumo pelas palavras
Breves

Pois Homero te é
Estranho e planos
Navegam homens e mulheres

Suas aporias do fantástico
Ensurdecem-me o tato

Um pixel de permanência
Revoga-me a suficiência

No altar de isopor
Comido

A ver poesia

Em adeuses que passam.
ACM


sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Na boca do deserto



Estava indo, há muito, para o deserto
e não sabia.

Antes, ao revés, julgava caminhar
das pedras para o bosque
lugar de onde o mel e o vinho jorrariam.

Bastava fazer a travessia.

Em alguma parte passei por algum oásis
mas era para este destino de pedra
silêncio e pasmo
que me dirigia.

Os beduínos há muito compreenderam
o que eu não compreendia:
apenas nos movemos entre pedras, cabras e camelos
olhando ternamente o fim do dia.

A tenda é provisória.

Eterno
só o áspero horizonte de pedra
e a poesia.


De Affonso Romano de Sant'Anna

Sobre a velha casa
Pousam as andorinhas -

O cão observa. 

Willians Ferreira Viana

Silêncio em mim

  


Enrosco-me no silêncio em mim,
Escuto o murmurar das águas que deslizam,
Suaves e de minúsculo caudal,
Brotadas das pedras, fonte de vida,
Nascente daquele riacho!
Abrigo-me nas sombras das frondosas árvores,
Onde me encontro, sublimado;
O linguajar dos pássaros,
No seu voar delicado e silencioso,
Eleva-me a um estado de encantamento!
Olhando as flores que bordejam aquele leito
De água transparente, cristalina
Faz-me sentir a paz,
Que o meu espírito procura!
Levo-me nos pensamentos etéreos,
Vagueio por álamos florido;
Vejo flores de rara beleza;
Borboletas, de asas multicolores
Deslumbrantes no cenário que se me depara!
São momentos em que o tempo,
Perdeu a razão de ser.
Ali, naquele lugar e naquele instante,
Só eu e a natureza,
Somos o clímax de um sonho
Sonhado, mas não vivido!


José Carlos Moutinho

No beiral da casa
uma andorinha fez ninho.

Abrem-se biquinhos.

Angélica Maria Villela Rebello Santos


Voa, andorinha,
Ao te ver cortar o céu

Esqueço de mim.

 José Fernandes

Na beira do cais
Sob o olhar dos portuários

Nuvem de andorinhas.

Cecília Akemi Nozaki

O MITO DE CARONTE-O BARQUEIRO DA MORTE



O velho barqueiro moribundo das antigas eras
Navegava à espera de algumas almas ignotas
Pois não era que o defunto
Tinha que viajar junto com seu óbolo
Senão o arquétipo da morte, com sua fúria indecente.
Não tinha dó do dormente
Deixava-o no Limbo
A espera do seu último gemido oco
Mas para o bem da mesquinhez dele
Os visitantes da barca
Iam sempre de boca fechada
Com a moeda debaixo da língua
E assim pagavam sua passagem finda.


Por Giselle Serejo 




Terreno baldio
A florada do cipó
repleta de orvalho

Dorotéa Iantas Miskalo

AS COISAS QUE PENSO QUE SEI


Só os poetas sabem
adormecer pedra e despertar solidão,
materializar o abstrato e fantasiar objetos,
miscigenar sonhos e atravessar o concreto,
se conectar aos pássaros e preencher os espaços,
construir pontes que resgatem o abraço,
destruir muralhas que aprisionam a ternura,
e derrubar templos que incitam a loucura.

Só os poetas sabem
lustrar significados esquecidos nos escombros,
encontrar detalhes no meio da imensidão,
conversar com as águas nos meandros de um rio,
espalhar sementes de palavras no cio,
extrair do orvalho a cura para o tédio
e da delicadeza o poderoso remédio
que irá suavizar nossos corações.

Eu que nem sou poeta,
apenas, deixo aqui meu testemunho
sobre as coisas que penso que sei.


 NALDOVELHO
sou satélite
dos girassóis ao vento
reluzo ouro


(Cristina Desouza)

O arame farpado
para a andorinha que passa

apenas poleiro.

André Silva Castro

Canção do dia de sempre...



Tão bom viver dia a dia...
A vida assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu...

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...

"Mário Quintana"



O inseto morto
Brilha ao nascer do sol

Coberto de orvalho.

João Toloi

A subtileza da brisa



Tens nos gestos a subtileza da brisa,
Na tua voz a doçura melódica do murmúrio,
Timbre de excitante fascínio;
O teu olhar, brilho de estrelas cadentes,
Que me iluminam o meu sentir,
Penetrando fundo a minha alma!
As tuas mãos, ternura do êxtase, no afago,
Que me deleitam na carícia do teu desejo;
O calor do teu corpo, no abraço consentido,
Prazer enlouquecido pela razão que se vai;
O estremecer na vibração de nosso querer,
Pelos beijos que trocamos, leves como penas,
Que arrepiam os nossos corpos escaldantes,
Dilatam-se os poros, que se desidratam pela excitação;
Pensamentos que se perdem no nada,
O irracional, ocupa o trono do racional;
Apertados num só corpo, excitam-se dois corações,
No murmurar das nossas almas
E na vontade de nos sentirmos.

José Carlos Moutinho