sexta-feira, 22 de setembro de 2017

A moça da vitrine



A moça que monta a vitrine
Não é como a cesta de vime
Que aguarda alguém a compre
Ninguém à moça corrompe

A moça que ajeita a vitrine
Têm pouco mais de vinte
Gosta de ir e de voltar
Na mansão do mundo estar

A mãe disse “vá com Deus”
O pai nunca se arrependeu
Da boa filha trabalhadora
Menina dos olhos da patroa

O amor lavou-lhe a alma
Mantém a fronte sempre alta
Pois do primeiro não esquece

Enquanto o trabalho enobrece


Ari Marinho Bueno     

Contraste nas ideias imaginadas



Começo a escrever, sem nada preconcebido.
Tento encontrar nas ideias,
Algo que me satisfaça e que seja razoável;
Penso em amor e logo me surge,
Paixão, ilusão e desilusão!
Se à mente surge a imagem do mar,
São as ondas que se vêm desfazer em espuma,
Na dourada areia da praia!
Se me lembro dos infelizes,
Vejo com mágoa as pessoas que por aí circulam,
Almas penadas, oscilantes nos esquálidos corpos
E recuso-me a pintar essa imagem!
Volto-me para a natureza, sempre bela,
De cores fascinantes,
Voam as aves multicolores,
Nos seus chilreios de belas melodias!
Ah…agora sim, vislumbro com clareza e acuidade,
O sorriso que baila nas bocas das pessoas,
Que passam, alegres, felizes…
Porque são indiferentes,
Aos esquálidos que tremem de frio,
Porque as suas roupas,
Simplesmente são trapos, esfarrapados;
Talvez um dia tenham sido roupas,
Jogadas ao chão sujo de qualquer rua!
E os que passam, sorriem…
Quiçá de vergonha;
Falta de partilha com quem deixou de sorrir,
Talvez até de chorar,
Porque se esvaíram na solidão do sofrimento,
Perderam as lágrimas
E o sorriso é esgar de dor,
Nos lábios ressequidos pelo desespero!
E as ruas enchem-se de gente que sorri,
Que se cruzam com aqueles que choram,
Esvaziados de tudo,
Quem sabe se da própria alma!

José Carlos Moutinho



ACORDELANDO A VIDA


Eu sou mineiro de Minas,
Lá das tais Minas Gerais,
Canto versos, faço primas,
Até não conseguir mais.
O meu pai foi sertanejo,
Minha mãe foi só desejo...

Nas montanhas fiz a rede
Pro meu corpo descansar.
Fui matar a minha sede,
Bem distante do teu mar.
Nasci lá na Mantiqueira,
Na minha terra mineira!

Quem me ensinou a pescar,
Foi o meu velho Francisco,
Como é belo esse luar,
Mesmo crispando o corisco.
Na beleza das campinas,
Vou te conhecendo, Minas.

São diversas minhas dores,
Como é belo entardecer,
Tuas matas, meus amores,
Nos teus braços, vou morrer!
Nas tuas guerras fiz paz,
Em teus abraços, Gerais!

Sopro o vento lá na serra,
O vento vem de mansinho,
Canta o canário da terra,
Também canta o coleirinho...
Tanto canto que é capaz,
Encanta Minas Gerais...

Meu lamento vem distante,
A saudade dess’ alguém!
Meu amor, por um instante,
Tanto amor tamanho trem...
Sou mineiro e tenho fé,
Nascido em Muriaé!

Menina, faça o favor,
De me prestar atenção,
Tô falando d’ocê sô!
Vem vindo do coração.
A dor não mais arremata,
Pois sou mineiro da Mata!

Viola de doze cordas,
São cordas do coração,
Vê menina, vai acordas,
Chora meu violão!
Eu sou mineiro da Mata,
Ouça a minha serenata!

Eu comi feijão tropeiro,
Misturado com tutu,
Eu bem sei do mundo inteiro,
No buraco do Tatu...
Minha mãe é carioca
Mas conheceu engenhoca!

Tomei muita da guarapa,
Adocei o meu café,
Onça matei foi no tapa,
Com pescoção e chulé...
O meu pai de Miraí,
Bem perto d’onde nasci!

Fiz meu canto no repente,
Nem pensei no que ia dar,
Em careca, passo o pente,
Tiro poeira do mar.
Tanajura? Comi prato.
Bebi Iara no regato...

Vou terminando meu verso,
Tô cansado de rimar,
Vou buscar meu universo,
Juro, mais tarde, voltar...
Agora vou terminando,
Devagar, já vou andando...



 Marcos Loures  

LUA NUBLADA


Lua nublada?
Vez em quando aparece,
quase sempre se esconde.
Madrugada de outono,
onde o silêncio enlouquece
e a cidade não dá conta
de como é feio o abandono.

Ruas desertas, esquinas vazias,
portas e janelas fechadas
e alguns poucos carros
passam e não param.
Ainda existe o orvalho,
tipo lágrima discreta.
Ainda existe a espera,
coisa estranha e inquieta.

Lua nublada?
Já foi cheia e exibida
dentro do meu quarto,
já dançou noites de insônia,
bebeu todo o meu absinto,
fez juras de amor eterno
e depois minguou.
Hoje é só nublada:
vez em quanto aparece,
quase sempre se esconde

 NALDOVELHO


BRUNIDO



Oh lábios de mel
em forma de pétalas
igual abelha eu beijo
Esse céu de estrelas
Rosatel

Amor que me acende
ternura que encanta
e o carinho levanta
Assim a gente sempre aprende
O melhor em cada beijo

Quando cheiro esta flor
começa toda minha terapia:
a vida fica cheia de cor
e o desejo traz alegria!
Ao seu lado eu viajo

O sonho é compartilhado
neste sentimento correspondido
que sempre faz bem ao ser amado
Ele deixa o coração brunido
por um beijo iluminado.


Sisino Pereira de Souza

Um rap para São Paulo da garoa.




São Paulo da garoa,
da chuva que não escoa,

das enchentes, das nascentes...

Cemitério da Consolação,
Augusta e Paulista,
arco-íris e ametista.

São Paulo ronda os butecos,
há sangue no bar,
você não soube me amar,

gente louca, varrida,
hemorroidas e polaróides,
academias e poluição,

esteiras e samba-canção,
solto gritos de emoção!

Garganta seca,
CADÊ A NEGA??

Solta aí uma cachaça,

são os borburinhos dos bares,
é a eliminação de todos os males,

solta a tensão!
Stress, depressão, poluição,

olha, que isso dá uma canção...


The end.


Luiza Silva Oliveira       

Nº 1108


vida ganha em rifa
poesia traída

com odes às cifras.

Evandro Souza Gomes  

Beco dizia entra

Beco dizia entra
entrei e não encontrei o que procurava
mas achei muito lixo e garrafas que cantavam ainda cansadas da noite anterior
intrigada olhei para baixo
fui ter em outras moradas.


Giselle Serejo, in Beco,2011
aqui
redes em pânico
pescam
esqueletos no mar
esquadras descobrimento
espinhas de peixe
convento
cabrálias
esperas relento
escamas secas no prato
e um cheiro podre no
ar


arturgomnes

Versando o Cotidiano

"Versando o Cotidiano", representa muito mais que um simples sonho dentro do dia a dia. É quase o diário de alguém. "Versando o Cotidiano", permite ao leitor uma ampla e completa visão de aspectos da vida a dois. Podemos tirar lições vivenciando situações comuns e, até melhorar o lado amoroso vendo as cores com mais vida. A Obra "Versando o Cotidiano" são flashes do viver junto ao querer que busca na simplicidade demonstrar o básico em melhoria do doce amor a dois. Pois, o que é bom pode e muito ser melhorado. Nas entre linhas, fica claro que o amor é rosa. Ame primeiro que tudo melhora. Portanto, "Versando o Cotidiano" mostra uma viagem através do sentimento colocado em exercício no dia a dia, descobre as atitudes desde o início do relacionamento e quanto o amor é necessário. Ele faz bem a vida: somos acalentados por olhares, abraços e beijos. Tudo isso para que sejamos melhores no amor. E assim nos embriagar com o perfume do mesmo. E tudo fica possível com o amor: caminhar junto, viver a dois, respeitar e sorrir sob o encanto do amor. Com isso se completa a alegria na festança! A vida a dois entre deliciosos momentos, vem os sabores e aromas que sobressaem no encontro. É a energia do amor ao redor. Aí, se descobre que a vida é bela e o amor é rosa. Afinal, o amor é a locomotiva da vida. "Versando o Cotidiano" nada mais é que um combustível. Que aquece o prazer na procura de cada ser pela sua alma gêmea. Assim sendo, aqui está o sonho de um ser, muito simples, romântico que espera atingir o coração de muitos outros iguais a ele. O autor deseja a todos o melhor que espera pra si! -------------//-------------- (Sisino Pereira de Souza)


quietude jaz
gotas de silêncio
garoa fina


(Cristina Desouza) 

O POEMA

 - Para Antonio Cicero

Com que trama agora te traço
e com que lápis
e com que lábio
e com que lágrima
e com que lapso
e com que sonho

com que estilhaço hoje te faço
e com que parte
e com que plano
e com que pranto
e com que plágio
e com que soma

com que arco muito te caço
e com que cláusula
e com que canto
e com que calma
e com que cálculo
e com que sonda

com que ritmo mesmo te capto
e com que mágica
e com que mágoa
e com que máscara
e com que marcha
e com que sono

com que arquitetura te adapto
e com que fábula
e com que farsa
e com que fato
e com que fala
e com que sombra

com que antena apenas te capto
e com que rádio
e com que raiva
e com que raio
e com que rastro
e com que som

com que luz ainda te laço
e com que sangue
e com que samba
e com que saga
e com que sátira
e com que sol?

Adriano Nunes


Nobres patetas

Sub
Expressado

Sub
Classificado

Tão só

Nós
Em cachoeiras, aéreas
Estipuladas

Quais
Sóis, luas, vertentes
Das gentes

Elites tais
Bacanais do poder

A razão sem razão
De ser

Ou

Tudo aos espelhos

Reflete a plebe

Se nobres são os
Feitos
Ou só os eleitos,

A prostituir o poder.

ACM

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

"ponte aérea"



assalta-me
um pensamento...
veio leve
voo com ele
âmago e pele
lanço-me de vez
ao seu cerne

será que ele serve
ao que me proponho?
será que é só sonho
o que ele me concede?

agarra-me
um sentimento
feito febre...
vou com ele
alma e pele
sigo seu rastro
meu ser o persegue

será que ele é breve

como a vida?

será que em sua lida
ele me concebe?




Adriano Nunes 

Eu vivo povoada de gente



e alegres e festeiros sentimentos, mas, às vezes, preciso ficar à sós com meus tormentos,
alimentando pensamentos que curam
e, nessas horas, quando me procuram,
não entendem meu isolamento. Lamento,
mas eu só invento
esses poemas assim,

quando abandono tudo e todos, alienada em mim.

Mariana Valle   

Ventos da concórdia bussolar.



Dos
Óbvios sonhos
Planos

E

Quais
Refrões disponho
Não dispor

Seria
Matemática
Errática, fria

Ou aporia
Do não ser?

Nem elevo
Nem adulo
Nem casulo
Nem querer

Tampouco máscara
Ou fórmula de Báskara
Às reticências
Do amanhecer.

Ademais escrevo,
Componho, subsisto
Subsumo-me na letra

Não obstante, o falante
Falo
Calo
Caio

E subtraio meu eu
Ao horizontes

Em cujas fontes

Jaz poesia, ou vive
Declive na pauta

Simplesmente
E gentilmente

Elegante entreter
Os ventos.

ACM












E OS ANJOS RIEM DE MIM




Antes que o dia amanheça
e a luz do sol apareça,
preciso abrir as janelas,
expulsar do quarto os demônios,
quebrar vidraças e espelhos,
destruir mapas e planos,
perder o rumo outra vez.

Antes que a fruta apodreça
e os pássaros abandonem seus ninhos,
preciso cometer sacrilégios
em versos que falem o absurdo
de ruas manchadas de sangue,
e orar por este povo sofrido
que cego não enxerga o seu fim.

Antes que o meu tempo se acabe,
e o teto que me protege desabe,
preciso quebrar o silêncio,
alquimizar em mim o veneno,
poder socorrer meus irmãos,
mas ninguém lê meus poemas,
e os anjos riem de mim.



NALDOVELHO

DE MIM O SOPRO



Olhando p’ra mim respiro o que escrevo
Palavras saídas sentidas de dentro
Anseios alados vividos esfumados
Penumbras trazidas lonjuras guardadas

Revejo remiro ilusão tormento
Dor incontida angustia momento
Ajusto de coisas figuras passadas
Princípio sem fim saudades amargas

Atento deslumbro contento contacto
Vidas sofridas tão de abstracto
Resumo consumo nas dobras do tempo
Revejo reverso no verso de mim
Tristeza ternura confusão sem fim

Sou ponto de vida exclamação d’alguém
Certeza concisa colhida de quem
Trazida embalada de questões e razões
Olhar maduro que pinga ilusões


sérgio matos

Cotidiano V



Entre a flor e a ventania
a fresta de luz e a seta
a escalada e a bicicleta
o deserto e a companhia
nesse a perder de vista...

...Entre a sala de jantar
e de estar em solidão,
que venha o chocolate
em vez da salada mista,
num descuido que resulta
no desmanche do cuidado
entre a sim e a verdade
entre o não e a vontade
que a gente só quer se amar
mesmo assim sem precisão
entre o meio e resultado
num macio que perdura
entre o abismo e o lado a lado

Elane Tomich
T. Otoni,08 / 2011


Entropia



Redescobri a palavra
entropia.

Adentrei na desordem
na lenta desintegração
dos sistemas.

Sejam humanos
ou estruturais.

A oxidação
a ferrugem
e o caos
nos persegue.

Poderemos detê-los?


Ricardo Mainieri
Andei (re)ouvindo dois trabalhos fundamentais da cantora Joyce: Feminina e Água e Luz. Uma voz afinadíssima, um violão bossanovista, arranjos acústicos e letras com poesia aflorada. Por isso, convido os amigos a provar uma porção destas delicadas sonoridades.



Ricardo Mainieri             

terça-feira, 19 de setembro de 2017

A MORTE DO POETA



O poeta morreu,
dia desses,
vitimado por uma palavra perdida,
quando lia um decreto
regulamentador de orçamentos secretos.

E de nada adiantou
o socorro de gramáticos
e literatos,
pois, o ferimento foi profundo,
atingindo-o, de forma mortal,
enquanto, na fria manhã,
folheava o seu jornal.

Ferido de morte, que fora,
fez-se aguda verborragia:
uma enxurrada de verbos,
adjetivos e, até mesmo palavrões,
dos mais cabeludos.

Após tratamento intensivo,
com a aplicação de enálages na veia
e sonetos subcutâneos,
debelou-se o edema sintático,
porém, era tarde demais;
nada mais restando ao bardo,
que um coração exangue,
tal e qual um livro destroçado,
como antes não se vira igual.

No funeral,
diante do esquife,
em forma de rondel,
musas inconsoláveis
e amigos consternados
choraram interjeições,
metáforas e ironias.

Você que agora me lê,
tenha o máximo cuidado,
pois a morte está sempre escondida
em tudo que não lhe deixam ver.


- por JL Semeador, Lapa, 24/06/2011 -

O TEMPO DE AMAR


O tempo de amar,
de uma ópera,
deve ter a duração.

Carmen ou Carmina,
tanto importa,
que no ritmo do amorn
derretem-se os relógios,
findam-se as esperas
e tudo só termina
quando, do gozo, invade-nos o furor. . .

o tempo de amar
é um tempo sagrado:
a vida na na sua mais pura expressão;
a música a nos envolver,
- supremo instante -;
incorporando-se ao desejo,
num realimentar-se contínuo,
in-ces-san-te. . .

- por JL Semeador, Lapa, 22/06/2011 -


Lira idiomas & falares



Alegre entrego-me
Trégua

Trago trigo
Tranço
Tanto

Que manso treino
Tranca trevas
Trouxas e tria
Tríades tecelãs

Talvez
Tuas díades deem

Ou voem por
Sobre o trem das horas

Mundo afora
Desbravando aquém
Letras

Mares insossos
Ternos e trancos

Substituem substantivos
Subjetivos altivos meros

Trechos transmitidos
Transmutados em três
Tropas transbordadas
Travariam
Truques
Trovas
Trocas

Que não fariam
O alpendre de si
Envergar o universo

Para colher o sabor
Dos cabelos

Que perfumaram
Meu vácuo

Também
ACM


segunda-feira, 18 de setembro de 2017

UPSILON/DELTA

Se a pintura é tridimensional,minha arte tem quatro dimensões,pois a quarta é  a projeção do eu.
 Oskar Kokoschka

             
Decerro o meio
bifurcando o ponto
do alto
um delta
traz de si no raio incógnito
o intérmino começo;
velocidade do fim recomeçado
Crispa o limite
e a fantasia é a voz,
dispar o momento
naquela mesma disparidade
entre o violino e a música
entre o tempo e o calendário
o exprimível do inexprimível.
Da partida no sonho
signa o indivisível instante,
eclipse da hora e do espaço
fulminado o que estaria além
nem principio
                e nem fim
apenas o triplice descortínio
de Alfa à Omega
um ponto equilatero escreve
triplamente decerra o meio
explicito compasso
                   em forma virtual
o compasso do sentir.

                    Tullio Stefano

                    Curitiba, 9 de abril de 2005.

sábado, 16 de setembro de 2017

Morto?


Não sei.
Eu somente vivo entre as cores.
Talvez por isso,
muitos olhos densos e sem princípios,
decretaram minha sorte.
Ou desejam no íntimo,
apressar minha morte...


josemir(aolongo...)

AT HOME



O poeta habita
no reino do sentimento
a palavra é seu tijolo
a rima seu cimento.

Ricardo Mainieri             

Teus versos, tua Morada



por Sônia Arruda

Tentastes te esconder nos poemas
Mas te descobri além do repertório
Só na medida em que tu escrevias
Como espécie de metáfora, existias

Das palavras bem arrumadas
Eras meu entendimento generoso
(cocriação de minha imaginação
produção do meu eu desejoso)

Por que adivinhar as próximas páginas
Se devia, simplesmente, observar
Sentir os sentimentos espelhados
E a sutileza das imagens respirar?

Percebo que foi errado o encontro
Deverias somente no lirismo residir
A beleza do universo está no mistério
E não nessa coisa banal de existir

E esse tu que habitava os poemas
De forma impiedosa se dissolveu
Na realidade nua da luz do dia
O olhar desperto não te reconheceu

Fica, então, morando nos versos
Pra que eu possa a ti recorrer
Te encontrar nas noites de luar
Saciando meu desejo ao te ler



Desfolhando o passado

  

Se do passado desfolhei...
É sinal que amadureci.
Águas que desaguei
E sonhos que refiz.

(Nelson Rodrigues de Barros)


Epigrama n. 2



És precária e veloz, Felicidade.
Custas a vir e, quando vens, não te demoras.
Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo,
e, para te medir, se inventaram as horas.

Felicidade, és coisa estranha e dolorosa:
Fizeste para sempre a vida ficar triste:
Porque um dia se vê que as horas todas passam,
e um tempo despovoado e profundo, persiste.

Cecília Meireles


FRONTEIRA



Há o silêncio das estradas
e o silêncio das estrelas
e um canto de ave, tão branco,
tão branco, que se diria
também ser puro silêncio.
Não vem mensagem do vento,
nem ressonâncias longínquas
de passos passando em vão.
Há um porto de águas paradas
e um barco tão solitário,
que se esqueceu de existir.
Há uma lembrança do mundo
mas tão distante e suspensa...

Há uma saudade da vida
porém tão perdida e vaga,
e há a espera, a infinita espera,
a espera quase presença
da mão de puro mistério
que tomará minha mão
e me levará sonhando
para além deste silêncio,
para além desta aflição.

(Tasso da Silveira)


Um Disparo




Quando nada mais faz sentido o fim parece ser covardia e egoísmo, mas é apenas libertação da rotina de acordar e mover. Viver tornou-se algo insípido nesse mundo acinzentado, meu corpo dói sem causa aparente. Faço minhas últimas ações, desistindo do pensamento torpe de registrar uma carta de despedida, então vou para o quarto no qual tudo está preparado.

A vida e a morte brincam numa gangorra como duas crianças agitadas enquanto o tambor é preenchido com apenas uma munição. Minhas dores são emaranhadas da azia de existir e pela fome doentia de apagar-me de vez. Um disparo de metal contra o céu da boca jorra rubro encharcando paredes após o estampido que findou uma existência obsoleta.

- Mensageiro Obscuro.

Heder Duarte    


Agosto/2011.

Desengrandecendo a importância


vil da fala além viajora,
eu me recolho...
sou a ânsia,
uma emanação...
sou da distância entre as viagens,
uma parada, uma estação...
sou do indefinido
um ponto atingido,
reflexo semi-descabido,
que existe,
pois que sorri...
esconde-se.
Faz-se continuamente seguir,
e jamais recrudesce...

josemir(aolongo...)


ESTAÇÕES



Tem dias que os alinhamentos fogem dos eixos descontentes sem saber porque e as flôres rasgam-se suavemente, descobrindo-se levemente nos arremates da vida.Desmancham-se nos perfumes desenhando novas imagens, fazendo-as nascer como nascem os ciclos desabrochados da alma dentro de nós,em cada olhar milhões de serenatas transversais jogam notas no ar,na terra,na água e transmutam-se no fogo das transformações!


fátima bittencourt

Nada se faz absoluto...


Nada transgride
A lei do possível.
O que no hoje,
Se faz permissível,
Pode tornar-se
Intangível e inacessível,
No amanhã...
E aí,
Ei-nos deitados num divã...


josemir(aolongo...

ESCOMBROS...



No irromper do soslaio,
ao constatar uma presença
nada discreta
postar-se cada vez
mais louco,
sinto que a mutação
do corpo
faz-se solta,
à medida em que perdida
a anti-razão passa a menear
pelas iniqüidades do sem fim...
muito triste saber
que no hoje
ainda se plasma e existe,
a falsidade deprimente
do denegrir o sabor
doce do mel,
e deixar se atrair
pelo amaro gosto do fel...

A boca escancarada faz-se mera.
A mente desliza
pela estrada enlameada
das mentiras plasmadas,
que cintilam,
quais verdades.
Difícil Ser.
Mais difícil ainda,
crer que no inócuo,
haja pelo menos
rastros de viver.


josemir(aolongo...)

NA CALADA



escrevo meu nome
com a espada
na árvore morta
eu risco o nada
tiro farpas e
espinhos da
alma dura
sigo só
e impura
em minha andança
acabrunhada
não há lua
não há estrada
tudo escuro
tateio o negro
tateio a vaga
sobra minha mão
suja e branca
a destruir o vento
na calada


(Cristina Desouza)

O dia esmorece



O dia esmorece…
O sol esconde-se por detrás da serra,
Vai envergonhado…
Com as imagens passadas, pelas horas idas,
De gente que gritou, que discutiu,
Que não amou, que agrediu!
Vai triste, porque mãos apertaram
Com raiva outras mãos;
Com beijos feitos desprezo,
Vai desolado, com a ingratidão,
Arrependido pela luz que ofereceu,
Para que todos sentissem o calor,
Da bondade e do amor!
Agora, o dia morreu
No sol que se deixou escurecer,
Para que o breu os esconda,
De vergonha, pelas suas atitudes;
Não virá o luar, por punição
Aos que não tiveram a luz no coração,
Terão de viver na penumbra,
Da sua insignificância humana.

José Carlos Moutinho



A casa velha da ponte



Foi na mesma ponte da velha Aninha
que um dia também atravessei
ponte antiga e feliz
às vezes ficava triste e zangada
emburrava e não deixava ninguem passar
mas...era só as vezes...
A ponte velha, da velha trazia os tachos de doces de Aninha
certa vez, uma escrava por nome Isaura deixou o tacho cair
Ahhh, dona Aninha ficou brava
e mandou a escrava sumir dalí
Aninha, docinha malvada...
pensou a danada da escrava.

Giselle Serejo para domingo de poesia, 2011.


"o poema"



o poema
aquela valsa avulsa
aquela vista em volta
aquela vasta voz...

depois era descer
às gretas do infinito
do âmago, ao calabouço
do momento impossível,

arder, atento, em busca
da mágica quimera
que toda alegria abriga
em si: outra diáspora?

o poema
pouco a pouco, as laringes
de grafite se fundem
à folha... e tudo surge,

súbito, estranho cosmo
de imagens, águas-vivas,
medusas, algas, conchas
acústicas, sereias...

depois era voltar
à superfície frágil
da vida, às ilusões,
à procura de luz!


Adriano Nunes

LER-NOS DE MODO SOLTO...



Pelas alamedas, pelas vielas
eis que meus quereres
e os quereres dela,
complementam-se...

Tudo o que se faz belo é de beleza humilde.
Tudo o que faz alarido,
por certo perecerá por algum beco perdido.
Nada do que se arbitra e ostenta falsidade
ou a mancha inócua da dubiedade,
chega sequer a nascer.
Somente toma espaço,
como fosse um pesadêlo ,que se plasmou
por mero descuido.

Eu acredito que o todo é compreensivo.
Ele acredita.
Mas ao mesmo tempo faço-me apreensivo,
quando em meio ao que nos habita,
habilita-se o reverberar de coisas passadas...
ou a remembrança de uma esperança,
que não viveu,
porque covardemente antes de nascer, feneceu.
Por isso nesse divagar coerente
faço-me até poeta de verve consistente
e peço a Deus, que me proteja.
Pode ser que o que se deseja,
não seja o sonho, que se almeja.
E sim o fator prudente de saber-se aprender
a ler de modo solto,
as vontades nuas de um e de outro...


josemir (ao longo....)

"BOCAGE AO FIM"



-ALMA

-ove -aro -ermo
-enso -aio -ece
-ares -eias -eio

-iso -inha -aças
-ença -ensa -ando
-assos -itos -aços

-usta -ana -orte
-ava -anos -oube
-ados -ero -osos

-ira -ano -undo
-ama -ento -ulta
-ina -ores -uto

-iva -oza -eça
-ia -iste -ecem
-enas -onho -echa

-eixa -agem -enta
-ajem -eras -ende
-adas -inos -eres

-anto -eja -oso
-umes -ade -osas
-ena -una -ora

-eia -ada -ido
-ela -eno -iro
-ino -uro -igo

-elo -eito -ossas
-ite -oma -oiro
-oiros ante -osto

-alam -evos -ua
-oras -erna -ume
-ofre --ente -ude

-ARTE

Adriano Nunes

**Quando Bocage encontrava-se doente, perto da morte, ele escreveu muitos sonetos. Recentemente, estudei toda a sua obra e verifiquei que em seus últimos sonetos as rimas finais eram as que lhes apresento aqui em um poema que fiz. Espero que meu poema (deu um trabalho imenso!) traga-lhes luz! Coincidentemente, as terminações -ARTE e -ALMA eram rimas em finais de versos!


ENSAIO



O ar chove a ermo,
Penso nesses ensaios,
Ei-los de ar e areia.

Vi mesquinha trapaça,
Pensando na ausência,
Da análise e do espaço.

Busco ao norte uma sina,
Pensando ouço os anos,
Adoráveis ossos fósseis.

Mas há uma ira profunda,
Tormentos não passados,
Dores que atinam o luto.

Esquiza peça que troça,
Ensaístas recém-díspares,
Ao menos, fechem o sonho.

Ou contagiem as madeixas
Abranjam todas as quimeras,
Passado paladino dos seres.

Que o quanto seja o osso,
Rosas que ardem perfumes,
Antena atual de nossas horas.

O ensaio é nada que pensa.
Ironia literal apenas obscena.
Urologista de pobre cassino.

O elo do pleito do leitor,
Toma-te, escritor doido,
Embuste e ante impostor.

Evoque a atual lua malsã,
Umedeça a obra hodierna,
Sofra dúvida não ficcional.





 Adriano Nunes 



Versos sobre formato da teoria literária. Composto a partir de trabalho concretista de Adriano Nunes, que formulou tercetos com as últimas sílabas tônicas dos sonetos de Bocage (Alma - Arte). Tais últimas sílabas poéticas, em exercício, geraram logos, ritmos/sons e imagens. Quem conhece o formato literário do ensaio sentirá a crítica inerente. A nota do Adriano Nunes "Ao Fim" encontra-se aqui.



 Eduardo Ribeiro Toledo         

Embate


Dizia
o sábio:

que venha o logos
sua luz clarificante.

surja logo
antes que a razão
submerja

o místico
ouvia calado

apalpava signos
decifrava sonhos
sentado em transe

ambos se foram

apenas um deles
se deu conta disso




 Ricardo Mainieri