quinta-feira, 24 de maio de 2018

Lua Crescente

A lembrança e a presença do sumo a cada mordida :o que parece pedra também sangra .Tudo é miragem.O coração consagra os minutos em uníssono com o relógio, cintila como um farol agonizante.Sombra macia, folhagem farfalhando na brisa sem varanda.Na memória da pele o mar que me envolvia, inteiro.Uma voz oblíqua repete a pergunta incompleta.Busco decifrar o que falta , para livrar-me do que se arrasta, pelos becos tintos pelo tempo. Aquelas unhas imundas cravadas no peito há séculos.Sonho que sob figueiras perfeitas e perfumadas posso tocar o sorriso da lua.

Ledusha.Risco no Disco. FSP. 12/07/1998
"o amigo é a resposta aos teus desejos.Mas não o procures para matar o tempo!Procura-o sempre para as horas vivas.Porque ele deve preencher a tua necessidade, mas não o teu vazio "

Khalil Gibran .

Linha Cruzada

Silva a noite liquida sobre a cidade .Estremeço com o telefone que dormiu no meu umbigo.Ligou do aeroporto virado, mas dócil.Sotaque irresistível, bossa melopéica. Suspiro rouco , simulo calma."Absolutament moderne ".Apesar do frêmito quase náusea, cair fora nem pensar: eriça meus ossos a vespa do amor .Onde te encontro?Saia e saltos, absorvo o vulto que se aproxima varando o vento outogonal, mescla de cinzas e azuis. Nenhuma fresta a perder.Mergulho nos seus olhos venezianos:envelhecer é passar da paixão à compaixão ? Ele nunca leu Camus. Sobre os afetos sabe pouco mais que os trancos. Embaraço de lítio e linhas,mamãe não me pariu prêt-à-porter.

Ledusha.Risco no disco.FSP. 22/03/1998

Jacques Cousteau




Verbo, lerdo, tanto
Tempo
Tendo toldo lauda
Lavra e

Leva a vida

Lava os vedas
Louva
Lapidando loucos


E lerei linhaças
Lavando vou leve, livre

Lembro, logro

Ao léu da edição

Li aedos

Topo da cadeia literária
Curitibana



ACM

Objetos




As doces luas, diabetes
Pois duas nuas e seus
Chicletes,

Corroboram, psicólogas
Eventuais e eventos
Astrais.

Elas, mariposas do
Som de Cristal.

Relevam origens do nome
Pois são
O que são e não mais
ACM


Suco de isopor




Não se trata de
Ou pão

Patamares literários
Pinceladas

Ego que não se infla
Ou inflama
Através das eras
(Arte que não se vende)
E não vende?

A letra subjaz e jaz
Jazz

Subsiste
Triste, não triste

Pelo amor que se foi,
Provado, ao nascer do sol.

Temos tanto a escrever
Somos água imortal.
ACM


quarta-feira, 23 de maio de 2018

Rainer Werner Fassbinder, O Desespero de Veronika Voss


José Expedito Dos Santos          

Um mundo que parece fechar-se sobre si mesmo, tentando atingir uma espécie de purgação do mundo pelo excesso de artifício. O próprio Fassbinder é o primeiro a dizer: “Não existem acontecimentos reais. O verdadeiro é o que vem da arte”. É o Exspressionismo para além do convencional.


A vida é um presságio
cobra ágio
da alma que nela não mergulha.
A vida é uma agulha cujo olho um lago olha.
Cega a lua vida que bebe de si o fél .
A vida é uma agulha cujo olho um lago olha.
Cega a lua vida que bebe de si o fél .
Wilson Roberto Nogueira



O que respondo à flor dourada de pétalas prateadas
meu caule de carvalho velho curvou-se ao seu olor
Quão breve brisa soprou alento ao tronco enrugado
dores de juventude hoje não pesam na nova morada
amores de esquilos na alma inquieta
tronco  grávido de felicidade na madeira velha
a qual não se curva ante a tempestade...
Wilson Roberto Nogueira

Tente e retente que a tinta sairá do cuore ou do cérebro ou das cicatrizes ou da sombra
penso :equilibrar-se sobre um fio no alto do circo não tendo rede embaixo e ser franco e honesto consigo mesmo e com a morte.Usar o discernimento e o bom senso sempre senão cataplaft...
pode não ter nada a ver com a gíria parece uma erupção sem barulho de algo que assisti nas sombras dos sonhos.
levantar peso, a vida já faz; lançá-lo à distancia meu rapaz é o que satisfaz.A jóia do saber viver é aproveitar os detalhes da vida , focar na claridade sempre , mesmo no escuro...
preciso de drágeas de auto-engano para convencer a sombra que sou que sou sol
só sabendo ler na sombra que sou que existe sim a possibilidade da luz.

Wilson Roberto Nogueira.

a alma não ocultara a si diante do opaco espelho das opiniões
o caráter delineara mera sombra no empoeirado espelho
pálida vida velada de luares invernais sobre ruínas que prometiam sonhos
alicerces de nuvens
vidros partidos de janelas que não veem o branco dos olhos dos dias
parindo da dilacerada visão cores onde apenas bruxuleiam fantasmas
janela aberta ao deserto nos olhos do abismo.

Wilson Roberto Nogueira

A cada dia, caía-lhe sobre os ombros pesados casacos de agonia
tão pesados, que os passos das horas eram grilhões a apunhalar
as veias da vontade de ser livre enfim .
Assim provava o sabor de saber-se vivo.

Wilson Roberto Nogueira


Alguns compenetrados, outros vagando pelos quadrantes da sala a consumir o tempo em lenta lenta agonia ou olvidando por completo os insondáveis caminhos das matérias .Outras personas a paisagem do teatro interpretando?Interpretando saberes e seriedades; outras profissionais catando códigos na busca por peneirar pedras preciosas de algum edital.Mais adiante zanzam a procura do que desconhecem, apenas flanando nas veias expostas de cidades imaginárias .Naquele canto alí , a natureza morta dos gestuais de sapiência dos abancados."Oito horas a Biblioteca fechará suas portas . "Os livros ficaram presos e dentro deles leitores fantasmas.Essa catedral não recebe sem tetos e suas correntes de pedras.

Wilson Roberto Nogueira.2009/19/09


tateia o tempo o coração da memória
com espinhos a escrever uma nova estória.

Wilson Roberto Nogueira


cada frase franze a testa do verbo abrindo sulcos
cicatriz do tempo a germinar rosas entre as pedras.

Wilson Roberto Nogueira


Ler no braço toda uma história - as placas de gordura , as pelancas, as casquinhas do ressecamento; tudo marcado pelas vírgulas das cicatrizes;cada letra com o devido pingo de sarna.Um pergaminho de deterioração, degeneração a espera do ponto Final.

O olhar perdia-se no opaco enredo de u'a estória de desenganos.

Wilson Roberto Nogueira

Comprara livros .Lia ?Eram vidas que o mantinham em pé.De si só vidas dos outros.Pensamentos-velas e idéias âncoras munição para o espírito.Até o jogarem no arquivo morto da repartição.

Wilson Roberto Nogueira


É assim mesmo, a foto vai se apagando ou vamos dia a dia passando a borracha, virando a página...Viver é conviver ,fazer vínculos caso contrário é só existir. Se penso já tenho companhia. Embora seja tal um porre de vodka de fundo de quintal. O rato só aproximava-se da luz de suas lembranças para melhor conduzir as letras em suas fracas patas sujas de tinta e mesmo assim conseguia produzir um modesto verso que lhe agasalhava de sombras e sonhos.

Wilson Roberto Nogueira


só o que sobrou do sonho
é essa sombra no teu olhar
o pesadelo trêmulo no teu caminhar
é o vacilar dançarino do demônio risonho
a busca por algo invisível que a razão não alcança
são os passos incertos dessa dança.
letras incertas qual chuva de prateados
gafanhotos
afastam chateados garotos abreviados
de sonhos de proletária vida
a morte renasce em cada sonho que assassina
essa é sua sina.
a sombra no teu olhar
é a alma que desaprendeu a dançar.
tua seda sua sem amar
o mar te convida mas
mas não há mais nada
nada sobrou do sonho
na razão do teu amar.

Wilson Roberto Nogueira
2009


Cumpre o rito
sumário
a soma de uma vida
um grito ordinário
numa cópia rasgada
de Munch.

Wilson Roberto Nogueira
2009


Cai um pingo de tinta
e a palavra se cobre
de mistério.

Nada tema com o trema
não trema com a reforma
da Língua
Ela é carne viva
e não é só portuguesa
brasileira
afrolusobrasilofona
deixem morrer de fome
os cães de pedra da tradição
tais jazem no chão.

só o sombra sabe
onde desabrolhou
feliz Deisi.
Está deisiando olor alí
aqui agora acola
lelé legal
tri humus do humor.

Wilson Roberto Nogueira
2009


Não lamenta

Não olha para trás

Não para

segue avante
Atrás caminha a Noite
a desenhar as curvas da alma.

A lembrança moribunda
seguir-te-á a serpe até o anoitecer
dos teus olhos.

Wilson Roberto Nogueira
2009


Noventa novenas para a névoa em forma de sombra
sobras de uma vida que dançava na tempestade
sonhando ser água pura fervendo no asfalto
marcas do silêncio no caminhar maldito da memória.
reza a estória que o fantasma sem nome alimentava-se
da fome, da guerra e da peste.
Faminto de fome não passou
da guerra bebeu todo o sangue
a peste sua assinatura nas crianças que não nasceram.
O espectro do esqueleto imortal perseguia a bruxa,
a macróbia camponesa pelos campos radioativos e rios
que suplicavam água para viver.
Voraz silêncio depois da chuva de metal
semeando campas em aldeias- lápides
só o fogo iluminando a lua ausente ao entardecer.

Wilson Roberto Nogueira
2009


deves deixar de ter as entranhas expostas
no açougue

falar em voz baixa para que meu coração
apenas seja ouvido pelas vísceras.

O coração é a luz intensa que dita os passos
da razão
É a luz que encobre as pedras dos ocasos
é a ração
diária de sangue que a vida cobra
daquele gauche que por hora veste
a armadura da razão

Wilson Roberto Nogueira


Revestida de cinza e brancas rotas vestes
voam plácidos no abismo olhos de luz negra.
Cinzas voam livres e velhas prisões famintas
agora são ossos morada de flores.
flores de pétalas doces .
Janelas em prantos esperam horizontes
cicatrizes costuradas no aço arames são caminhos
veias da liberdade.Bebe a paz no elmo caído da guerra.
Todos nossos ossos secos ao sol são brancos.

Wilson Roberto Nogueira


fantasmas flutuam pálidos na meia da luz
cortina de sonhos na janela da alma.
pisca o vento murmurando antigas orações
coração do tempo bate aflito pulsão de morte
temperando a vida parindo da ferida uma semente de sangue.
Bate a porta e a morte desejada escapa deixando queimada
a morada da vida num beijo de aço e pus .
Na guerra a arma de destruição duradoura é o estupro.
No rosto da inocência a culpa eterna de ter nascido
a herança queimando na espinha a cada olhar
o silêncio estalando como um chicote
Passos na escuridão e no trovão uma bota no rosto
pegadas sonâmbulas na neve
velhos fantasmas da guerra
Ruínas de igrejas,mesquitas, sinagogas
Tantas casas vazias onde está o Senhor !!

Wilson Roberto Nogueira

MIMETISMO




O seu cabelo era loiro
Como o cabelo de oiro
Dum milheiral em flor

O seu rosto era rosado
Dum rosa que aposto
Era o da rosa mais formosa,
A mais linda do prado

A sua boca era rubra
Dum rubro tão doce
Como o da papoila mais rubra
De onde quer que fosse

E não há quem descubra
De onde era ela
E não há quem nos diga
Que a rapariga
Não fosse bela...

Mas quando um dia se casou,
Tudo mudou!

O loiro cabelo
Outrora brilhante
Tornava-se escuro,
Impuro, aberrante!

O rosto,
A face bela,
Tão cheia de gosto,
Ficava amarela!

A boca tão rara
E tão cheia de amor
Ficava clara
Sem cor,
Sem calor
!
E toda a alegria,
A força e energia,
Da moça fugia
Ao vir o amor!

Tristeza!
Onde está sua beleza?

Foi quando casou
Que a bela mulher
Voltou a nascer
Velha, velha!

Caprichos da natureza!

José Sepúlveda
(Arca de Quimeras)


FILHOS DE NINGUÉM




'História duma criança pobre
Que vive com a mãe
E teve por pai um prisioneiro
E por padrinho um carcereiro
Que lhe chamou Liberdade'

Filhos da terra e de ninguém,
Abandonados por quem
Os ama, os quer, os tem…

Tu, filho da terra.
Tu, gerado
Das lavas de um vulcão ébrio,
Ficaste abandonado
Sem nome, sem fado!

Tédio!
Tédio para os homens sem remédio!

E foi o padre, deixai-me pasmar,
O padre da aldeia que a foi baptizar

Filhos da terra e de ninguém,
Prisioneiros revoltos
Dos cárceres soltos do além…
Tu, carcereiro odiado,
Tu, filho de ninguém,
Foste o padrinho
Do rebento abandonado
Que vive com a mãe!

A alma tua
E a tua desventura
São a esperança de felicidade
Para essa criança
Que vai sentir piedade
De gente malvada…
E tu, filho do nada,
Filho da ternura,
Apenas lhe chamaste
Liberdade!

Ó prisioneiro do além.
Que busca essa verdade
Nas celas e nas lutas,
Prisioneiro por caridade
Que foge das garras de tigres famintos
Das savanas corruptas!

O filho és tu,
Seu ser a liberdade
E tu, pai, o teu prisioneiro!

“… e o preso viu fugir-lhe a Liberdade
Nos braços da mulher do carcereiro!”

José Sepúlveda
(Arca de Quimeras)


            
A aglomeração de assentamentos lhe causava arrepios. Apesar do silêncio, era com se pudesse ouvir os clamores das entidades e seus cavalos vibrando no entorno de cada uma das imagens. Enquanto abaixava-se em frente ao seu guia, sentia os músculos da perna estremecerem, como resposta ao esforço. Estava no limite das forças.

Assim que fechou os olhos ouviu ao longe, nas próprias lembranças, o grito que dera antes do desmaio, seguida do domínio da inconsciência sobre si. E a força da revivência lhe envolveu em desassossego. Por medo, cessou a entrega, arregalou os olhos e encarou os olhos do santo: nada fazia sentido. Era incapaz de compreender que o cumprimento de um destino prescrito por uma consciência alheia seria a condição para a sua permanência. Como numa íntima contradição, tal entendimento anulava sua própria razão da consciência.

Contrariada, Paula se cansou de tentar uma oração que não se justificava na ausência da crença. Levantou-se com esforço, observou o espaço, deu uma volta em torno de si. Fora do eixo, pensou em sair, subir as escadas do barracão, ir para a cozinha e por lá, junto da mãe e dos irmãos-de-santo, tentar combater o desânimo recorrendo ao saciar da fome. Mas quando lembrou do gosto que tinha cada uma das refeições, desistiu. Tudo o que ela precisava era de um pouco de tempero, de sal, de cor, de força – enquanto que os pratos possíveis tinham apenas dissabor. Diante da prévia insatisfação, foi alcançada por uma resposta certeira que, mesmo não sabendo saber de onde partira, lhe tomou: Esse lugar não é para você, menina. Fuja daqui.

A crença de que aquela voz não fora íntima a fez esquecer dos rituais de confirmação e da representação de uma fé que nunca houve dentro de si. Pegou a imagem de seu guia, a comida oferecida ao santo e foi embora, sorrateira, escondida. Saiu do quartinho, assumiu o caminho do portão. Partiu em busca de um lugar que amparasse não só as suas lidas; mas também as suas escolhas. Paula foi embora, cabeça raspada, vestida de branco, rua adentro, mundo afora.


Rejane Marques .                O avesso do espelho: Desassentada



redutonegativo.blogspot.com


Nas fogueiras do mundo


Eliane Triska       



Quando adentrei a tenda dos mortais
Meu gesto de obediência, a me sorrir,
Acenava da estrada a prosseguir.
Quão grandes são os mares outonais!

Quantas rosas de fogo em mim ardiam!
Quão clemente o calor de acreditar,
Com pincéis d'água, alguém saiba pintar
Pássaro diferente dos que piam.

Ontem, ou hoje, já não sei mais quando
Eu duvidei de mim, por ser provável
Não saber, ao seguir me torturando,

Que o gesto, mesmo, nunca haja sorrido.
E o pobre corpo ao mar, tão miserável,
Seguirá como cinzas, decaído.


Canoas/RS
               

O teu riso


Adriana de Sousa           


Solta o riso genuíno da
tua alegria. Desocupe o
coração das incertezas
e deixe a brisa da manhã
renovar as tuas esperanças...
Veja o nascer do Sol, a promessa
de uma possibilidade de paz,
de tentar de jeito sereno,ser feliz!
Só se faz tarde para aqueles que
perderam o coração de criança,
o coração valente que a tudo
suporta e supera por acreditar
No amor!...
Se a vida doeu, guarde somente
o que foi bom!...O que foi
negativo já serviu de lição, irá
somar na restauração de
um caminho melhor!...
Ah por favor!...Solta o teu riso!
A tua crença, a tua Fé!...
Nada nos beija a alma sem a
Permissão Divina!...



cataclismos




Vi os bambambãs de minha geração com picaretas buscando o pote de ouro, esgarçando o arco-íris; assisti yuppies de merda degelando as geleiras , com seus carrões que decolam de aeroportos e jatinhos que descortinam os ares a partir do meio-fio; topei neguinho querendo tudo, tudinho , e uma penca de manos pousando pra fotografias com o estomago grudado na omoplata; percebo chuvas teimarem em não dar as fuças , onde faziam um fuzuê e transformarem em lagoas locais que sequer pingava ; constato a fúria da natureza atrás de recordes , numa ensandecida aporrinhação com o guines ; noto um bando de maiorais papagaiar : crescer , desenvolver , maximizar e o planeta com tecnologia para alimentar 3 vezes seus miseráveis ; escuto a lengalenga dos manda-chuvas e manda-secas em encontros onde o boi vai de pijama, enquanto jornais entediantes dão conta do último cataclismo; topo uma cambada de doidos cuja necessidade de coisa alguma estende-se até que a ossuda os açambarque , entretanto prosseguem comprando,adquirindo, tascando na garagem a décima segunda máquina , numa disputa demencial com outras bestas do esbanjo, esnobo e foda-se os netos que não verá ; saco o fetiche do consumismo infectando nenéns e gaiatos cantarolando: o futuro é duvidoso; testemunho uns zé-ruelas felizes em seus casebres , celebrando a vida , conforme determina a folhinha , enquanto os donos do mundo entopem-se de prozac e o escambau ; assisto na TV uns bunda-moles glorificarem o mercado , vociferando que comida na mesa do povo impacta as contas públicas, noticiam o aquecimento e exigem dígitos e mais dígitos encorpando a economia; ao passo que de 1800 e vai fumaça o sapateiro Proudhon esgoela : Oh personalidade humana! Como pudeste te curvar à tamanha sujeição durante setenta séculos ?

Marcos Mello

Noticias que eu queria ler.




Eu quero ler nos jornais
Que acabou a falsidade.
E no mundo inteiro só,
Pratica-se a lealdade.
E que todos os carrascos,
Se atiraram nos penhascos,
Levando toda maldade.

Quando eu abrir os jornais
Eu quero que esteja escrito,
Que ninguém mais passa fome
No planeta em que habito.
Também quero em todos ler,
Que no “globo” não vai ter,
Mais espaço pra conflito.

Não vejo à hora de ler
Que acabou a ditadura,
Que todos têm liberdade
Pra sair da desventura.
Que o ser de qualquer crença,
Cultive sem desavença,
Seus conceitos de cultura.

Quero ler boas notícias
Que já cansei de esperar,
“Que o mar vai virar sertão”
“E o sertão vai virar mar”.
Que o amigo CONSELHEIRO,
Homem bom, “santo” e guerreiro,
Vai voltar pra festejar.

Faz tempo que espero ler
Em MANCHETE nos jornais,
Noticias animadoras
Com letras bem GARRAFAIS.
Que o terrorismo acabou,
E o arrogante se calou,
E com ninguém grita mais.

Que tem cura para o câncer
É outra que eu quero ler,
E descobriram remédio
Que é pra gente não morrer.
Que filhos respeitam pais,
E Hitler não volte mais,
Pros semitas não sofrer.

Eu vou ter prazer de ler
Que a inveja adoeceu,
Foi parar na U.T. I
Não teve jeito e morreu.
E o traidor no seu enterro,
De triste foi ao desterro,
E nunca mais apareceu.

Assis Coimbra. Todos direitos reservado.





Ney Santos       
Os milionários quiseram comprar a felicidade com seu dinheiro, os políticos quiseram conquistá-la com seu poder, as celebridades quiseram seduzi-la com sua fama. Mas ela não se deixou achar. Balbuciando aos ouvidos de todos, disse: "Eu me escondo nas coisas mais simples e anônimas...

LÓGICA SOCIAL




Sem CIDADANIA não há DEMOCRACIA,
sem EDUCAÇÃO não há CIDADANIA,
sem CULTURA não há EDUCAÇÃO!

(Andra Valladares)

Aedos e rapsodos da lua marrom


Aedos e rapsodos da lua marrom
(Em uma superfície lisa)

Pois, um lugar, um luar
Banha-me o ego em prata
Cabalar

Fagulhas de egos e centelhas
De vidas psíquicas
Transmutam-se em pó
Em fá, mi, ré, dó

Gente toda só
Gente toda só

A carniça é adubo em
Certas fertilidades e
Pela cidade verte pão
Em não se florir de rosas
Pois formosas e prosas
Do segredo mais clichê

Do universo.

(Da redação)

O pão da palavra,
O alimento do poema
A água da sabedoria
O dicionário das metáforas

Aedos curitibanos
(Um oferecimento)

Levados foram aos ventos
As chavões sementes de sempre
Germinaram inconscientes gentes
Nos territórios ficcionais
Derribados de si

Nós todos,
Vertente underground,
Minha crítica, meu fel,
Meus erros de ortografia

A água que jorraria
Continua a jorrar

No brilho do olhar, no clichê
No açúcar que um sem par
Havia por me negar

Na mansão de Voltaire
Em chafariz

A ver se condiz a ver se
Reverberará
ACM

terça-feira, 22 de maio de 2018


A palavra varou a escuridão
lavrando de pesadelos os
silêncios silentes da morgue
eriçando os pelos da morte,
que habitava no casulo cadáver
da história;
da tua estória escória de sifílização.
Sonha a sombra da devassidão
a derradeira hora da libertação
na barbárie que jesuscitou.
Ela caminha a teu lado e dorme contigo
esperando para beijá-la
a palavra larva da dor da moderna
civilização ocidental

Wilson Roberto Nogueira


Mesmo com toda lama. Com toda súmula, com toda sílaba. A gente vai levando. Outono em Curitiba com sinal verde pela frente !
RCO

ELA




Ela, sonâmbula ingênua, alimentando-se dos resíduos de pão recolhidos à tarde,
em seus passos, brisas suaves de grisálida emplumada em desalinho com o  vento,
digere antídotos contra seu próprio veneno;
depois de enxugar lágrimas de acetona, de enternecer seus sonhos,
de dissecar a fauna de seus sentidos, de esmorecer em falsos desatinos,
de esquecer seus primários instintos,
depois de estar no purgatório e não se enxergar Beatriz,
depois de reverter o espólio em simples cicatriz,
escalavra em suplício os intervalos do equilíbrio.

                                                              Ricardo Pozzo

AO MEU ASSASSINO


Em homenagem ao poeta curitibano Paulo Leminski segue este texto do Rodrigo Madeira

AO MEU ASSASSINO

há muito equívoco nesta cidade
sobre a morte de paulo leminski.
morreu de bebida, de curitiba,
de harakiri e o diabo!

deixe-me dizer-lhe:
leminski está morto e fui eu
que o matei.
era tardinha, sete de junho
de 89, na esquina do stuart.
eu tinha apenas dez anos de idade.

abracei-o no golpe da faca
e só o largaria
depois que ele se largasse. olhou-me,
excepcionalmente, com olhos de
cachorro manso e disse: "quem é vivo
sempre desaparece".
sorriu-me como se eu morresse.
nem perguntou
por quê. sabia que aquilo
era obra de um tigre...

hoje entendo a razão
de não ter cabido um "sinto muito,
poeta!"
é a ordem natural da coisas.
leminski também matou seu touro
e voltou pra casa de mãos novas.

comigo
acontecerá o mesmo.
não fiz nem 28 anos e já espero
o golpe de meu vingador.
tenho esta impressão
de que ele virá da direita,
sabendo que sou canhoto em tudo.

morro de medo do menino que
fala sozinho, possível poeta,
da menina que penteia os cabelos
no vento (será poeta?),
do adolescente no expresso
que lê a ilíada em pé.
morro de medo, morro de medo,
mas não há jeito, é certo como o sábado.

na esquina de casa,
na saída do barbeiro,
na volta da banca,
na fila do banco,
num estacionamento
de supermercado, ele estará
a minha espera.

inevitável que seja.
em algum lugar da cidade
meu assassino está nascendo.

escute daqui a vinte anos estas palavras:
"tudo bem,
cara, eu entendo! perdoe-se como me perdoei,
ou não escreverá sequer um verso.

apenas interceda em meu favor para que eu seja
enterrado em meu bar preferido.
só isso. os poetas merecem ser emparedados
em seu boteco eletivo, assim como as aves
devem ser sepultadas no ar.

o botequineiro saberá rezar minha missa."

não há jeito,
é certo como o sábado:
tal qual as putas de outros tempos,
o poeta cora seu rosto com sangue.

o sangue de outros poetas.

                                  Rodrigo Madeira

Ferias Frustradas?



Por Elisa Tkatschuk

Uma viagem para a Europa e geralmente associada por nós, brasileiros, a expandir horizontes, aprender novas culturas e, sobretudo, conviver com gente mais rica e educada. Tida como culturalmente inteligente, Europa e, no nosso senso-comum, sinônimo de anglo-saxonismo, riqueza cultural e financeira.

Supõe-se que, em países ricos, a população tenha acesso a melhor educação do mundo e que ela seja acessivel a todos. Preparada para seis meses de aprendizado da lingua inglesa numa escola na metropole Dublin, Irlanda, eu me deparei com professores pouco qualificados que não supriam a expectativa causada pela grande quantidade de dinheiro empenhada nesses cursos de inglês. Vizinha da Inglaterra, a Irlanda ganhou o apelido de Celtic Tiger dado o grande desenvolvimento econômico ocorrido no país nos últimos dez anos.  Aqui, para que um nativo seja professor, requere-se apenas um curso de duração de um fim de semana para que ele ganhe o certificado de TEFL, ou Teaching English as a Foreign Language. Por isso, muitos professores não são professores graduados, preparados para lidar com o desafio psicológico da sala de aula. Até ai tudo bem, afinal ninguém nasce sabendo e um curso de inglês não e nenhum curso universitário. Mas, quando dinheiro entra em jogo, não há relação custo beneficio que corresponda a situação das escolas de inglês.

Além disso, e preciso tomar cuidado com a propaganda enganosa. As brochuras das escolas podem prometer cafeterias, cursos e serviços que na verdade não existem. A desinformação ou mal-informação pode colocar a pessoa que comprou o curso numa rua sem saída, uma vez que não existe nenhum recurso ou orgão público, algo como PROCON para estrangeiros, disponibilizado caso ela esteja descontente com o curso que comprou. Já e dificil o bastante viver num país que não fala a sua lingua. Tentar conseguir ajuda em outra lingua, onde a ajuda não existe e onde você não conhece as leis, pode transformar o aprendizado cultural num pesadelo e inconveniente muito grande.

Tudo isso quer dizer que se você comprou um curso de inglês de duração de seis meses, chegou no pais, percebeu que a escola nao vale o preço que voce pagou ou que voce foi enganado, voce não vai saber para quem reclamar e não tera seu dinheiro reembolsado. Assim, e preciso atenção ao comprar qualquer curso antes de viajar para outro pais. Vale a pena checar se a informação que voce recebeu e verdadeira com alguem que ja estudou na escola para qual voce esta indo. E triste que, em países que recebem milhares de poloneses, chineses, japoneses, espanhóis e estrangeiros do mundo todo diariamente, nao exista nenhum orgão de assistência a imigrantes no que concerne a leis. Mais lamentavel e que muitos europeus culturalmente e financeiramente ricos não tratam os estrangeiros com toda a melhor educação que eles receberam. 

No final das contas – literalmente - pode ser muito mais divertido e educacional andar pelas ruas de bicicleta, ler livros, aproveitar o sol de verao ate as 21 horas, conversar com nativos e estrangeiros do mundo todo no parque tomando sorvete, sem ter a consciencia pesada por um rombo na conta bancaria.



Súplica ao meu assassino




Cala-me suavemente.
Cessa o estertor violento
de minha verve lírica
em vísceras alheias,
vertendo, de tua boca lacerada,
o sumo que alimenta
o meu sentir intensamente.

Deita-me languidamente,
entre versos brancos
e a tessitura vaporosa
de silêncios enternecidos.
E acomoda em meus contornos
tua alma sinuosa

Deixa-me repousar
às margens da vertigem.
E antes que se dissipe
o êxtase de minhas veias,
e eu pereça lentamente
no torpor da tua ausência
mata-me delicadamente.

Iriene Borges



Canção que ninguém ouve



Por que se luta tanto
Por poder, saber e grana ?
Por que sua grama
É mais bacana que a minha ?
Por que não consigo falar essa língua
e a que eu falo só xinga?
Pór que não tenho olhos verdes
E voz a planar
sobre a bolsa de valores ?
Por que os amigos poetas
estão ficando
cada vez mais pobres
doentes ou mortos ?
Por que só falo com demônios
Por que escrevo esquisitices
Porque sou demais sujeita
Por que você não fala a língua
de uma pessoa só
o coração batendo só
tão baixo
que quase não se ouve .

Marília Kubota



Sempre procurou refrescar-se na chuva; vestia-se com o agasalho do mormaço e sorria suaves melodias. Deitava-se  em qualquer banco de praça e celebrava boas-vindas com os pássaros matinais. Morreu ali ; dias atrás .A cidade com seu cheiro singular demorou para perceber o saco de baratas que um dia já sonhara, vivera, amara. Lá se foi mais um dia na vida de uma sombra na cidadezinha .

Wilson Roberto Nogueira


segunda-feira, 21 de maio de 2018

Assionara Souza


. Escritora, nascida em Caicó/RN e radicada em Curitiba/PR. Formada em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná, é pesquisadora da obra de Osman Lins (1924-1978). Autora dos volumes de contos Cecília não é um cachimbo (2005), Amanhã. Com sorvete! (2010), Os hábitos e os monges (2011), Na rua: a caminho do circo (2014) —contemplado com a Bolsa Petrobras, 2014; e Alquimista na chuva (poesia, 2017). Sua obra tem sido publicada no México pela editora Calygramma. Participa do coletivo Escritoras Suicidas. Idealizou e coordenou o projeto Translações: literatura em trânsito [antologia de autores paranaenses: http://www.literaturaemtransito.com]. Estreou na dramaturgia escrevendo a peça Das mulheres de antes (2016), para a Inominável Companhia de Teatro.